Desenho a traço de três crianças lado a lado segurando um pratinho com bolo

O dia em que voltei para casa sem desenho nem fatia de bolo

Nós, humanos, dificilmente ficamos completamente parados. Mesmo de pé em uma fila que não anda, mudamos a perna de apoio, coçamos o nariz, cruzamos o braço ou viramos a cabeça para algo que nos chame a atenção. É daí que vem minha dificuldade em desenhar pessoas. Nos poucos segundos que demoro para fazer um traço, elas trocam de posição e tenho de dar o esboço como terminado ou tentar refazer a cena de memória.

Ninguém larga do celular (exceto por uma bola)

Por isso, achei que o encontro do Urban Sketchers Florianópolis, no Parque de Coqueiros, seria bom para praticar a figura humana fora das sessões de modelo vivo. Era o aniversário de Florianópolis e a prefeitura havia organizado uma tarde com banda militar, bolo e distração para a criançada.

Sujeito com a camiseta “comissário” parecia esperar algo ou só estava olhando o movimento. O militar da banda saiu antes que eu terminasse de desenhá-lo

O parque fica em uma área sem uso que era chamada de Saco da Lama pelos moradores. Eles se movimentaram para reformar o local e hoje tem um gramado rodeado por um passeio com ciclovia e equipamentos de lazer. Da pequena praia, imprópria para banho, dá para ver os prédios no Centro da ilha e as duas pontes de concreto. Um deck acompanha a margem do mangue por alguns metros.

A bermuda cargo com seus múltiplos bolsos virou peça obrigatória no armário masculino

Boto meu banco na grama, atrás da plateia da banda, e começo a desenhar os espectadores. Troco de alvo quando eles vão embora ou alguém fica na frente. Desenho uns três senhores com bermuda cargo, escolha preferida dos homens entrando na terceira idade (vou adiar a compra de uma dessas, por mais práticas que sejam).

Família em cadeiras de praia no gramado

A banda guarda os instrumentos e entra um funcionário da prefeitura para fazer um discurso oficialesco e sem imaginação. Tenho certeza de que até seus colegas aguentam firme só pela expectativa de uma fatia do bolo dos 346 anos da cidade.

Moradores aproveitam o parque no fim de semana

Logo, percebo olhos me espiando por trás do ombro. São três crianças. Me pedem para desenhá-las e posam como se fosse para uma foto, segurando o bolo recém cortado. Pela conversa, percebo que são de famílias sem muito dinheiro.

Termino o desenho mais rápido que o normal e resolvo deixar para elas de presente. As duas meninas são irmãs e o moleque, o primo, então achei que poderia entregar sem causar disputa.

Foi um daqueles casos em que fiquei feliz de voltar para casa sem o original. Mas uma fatia do bolo iria bem. Não perguntei às crianças para não parecer que estava pedindo um pedaço, mas acho que era de leite condensado com coco.


  • Caneta tinteiro Lamy Safari
  • Fude Pen Pentel
  • Caderno Hahnemühle A4

Comentários

4 respostas para “O dia em que voltei para casa sem desenho nem fatia de bolo”

  1. Maria Esmênia

    Que beleza! A história de um uskadiano(?) no parque, no dia do aniversário da cidade! 👏👏👏

    1. Foi uma tarde bem legal e diferente dos outros encontros.

  2. Mary Lou Rebelo

    Linda crônica de um bolo que você não comeu!

    1. É sempre assim, perco o melhor da festa!

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