A rua do Comércio (e das soluções para pequenos problemas)

Desenho a traço e colorido com aquarela mostrando fachadas de quatro lojas da rua Conselheiro Mafra, cada uma de uma cor diferente
Casario art decó da Conselheiro Mafra, desenhado no 22º encontro do Urban Sketchers Florianópolis

A rua Conselheiro Mafra é a rua das necessidades. A Felipe Schmidt, logo acima, é a rua dos desejos.

Ambas ficam no Centro de Florianópolis. Vai-se à Felipe Schmidt para olhar relógios, óculos escuros, roupas, perfumes e calçados e, eventualmente, comprá-los. Quem vai à Conselheiro, em contraste, sai com seu destino traçado.

Precisa de uma alça para a tampa da panela? Do copo do liquidificador? Consertar o guarda-chuva? De um zíper para a bolsa?

A Conselheiro é a via do comércio especializado e popular. Por “popular”, entenda-se aquilo que todo mundo uma hora precisa. Não porque quer, mas porque o parafuso da tampa da panela decidiu que aquele era o momento de quebrar.

Patrimônio preservado

De uns dez anos pra cá, deram uma geral na rua, principalmente perto da Praça 15 e pouco antes da subida, onde ela termina. Ganhou lojas mais bonitas e continua com seus casarões do século 19, como escreve o jornalista Carlos Damião.

Fotografia das lojas no mesmo ângulo do desenho, em uma tarde de céu azul.
Comércio tradicional da Conselheiro, fechado em um sábado à tarde

Um conjunto interessante, um pouco mais recente, é o das fachadas em art déco no trecho entre as ruas Bento Gonçalves e Pedro Ivo (foto acima). São ocupadas por estabelecimentos conhecidíssimos dos moradores: Tupã (embalagens), Vera Cruz, (aviamentos) Dermus (farmácia de manipulação) e 6B (papelaria).

Nem sempre foi assim. Quando eu era moleque e ia aos cinemas do Centro, cruzava a Conselheiro para pegar o ônibus de volta para casa no antigo terminal, na rua Francisco Tolentino. No caminho, passava por hoteizinhos baratos e prostitutas batendo pontos nas esquinas.

Mas a gentrificação já começou a partir dos grandes empreendimentos na parte alta. Em breve, quando precisarmos comprar uma tesoura de costura ou consertar um eletrodoméstico, não teremos opção – hamburguerias, cervejarias e empórios de importados não servirão para isso.

Então, em vez de tentar uma solução na velha rua do Comércio, seu nome antigo, teremos de substituir o item avariado por um novo. Não é assim que se faz no capitalismo?


  • Pena de bambu
  • Nanquim
  • Aquarela em pastilhas
  • Sketchbook Hahnemühle A3

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