Conversas no Ribeirão da Ilha

Desenho a lápis mostrando uma sequência de cinco casas de arquitetura açoriana, todas em cores diferentes. À direita, um carro cinza estacionado
Casario açoriano no Ribeirão da Ilha. Nanquim e aquarela

Houve época em que eu não gostava de ser abordado ao desenhar na rua. Achava uma folga, coisa de gente intrometida. O desenhista alemão Felix Scheinberger propõe a seguinte reflexão: se estivéssemos escrevendo um diário, seríamos tão tolerantes se um estranho viesse ler o caderno sobre nossos ombros?

Depois de anos desenhando em um banquinho na rua, me acostumei a conversar com curiosos. Mais que isso, passei a gostar. É a oportunidade de falar com alguém que conhece o lugar e que pode dar boas histórias.

Casario açoriano

Foi o que aconteceu há três anos no Ribeirão da Ilha, em um encontro do Urban Sketchers Florianópolis. Eu não quis desenhar o cenário mais comum, da igreja Nossa Senhora da Lapa, e desci até a beira do mar. Abri o banco ao lado de um ponto de ônibus, em frente para uma série de casas em estilo açoriano na esquina da rodovia Baldicero Filomeno com a travessa Sabino Silva.

Lá pelas tantas, uma moradora do bairro puxa conversa. Conta que é moradora do Ribeirão há mais de quarenta anos. Relata que morou no mesmo bairro onde eu vivo hoje, o Córrego Grande. Diz também que passou pelo Pantanal e Carianos.

Revela que havia perdido o marido há poucos meses. Naquela tarde de sábado, fazia serviço voluntário na igreja, visitando idosos. Logo, se despede para pegar o ônibus, mas em menos de um minuto uma amiga passa de carro e oferece carona. Coisas de bairros onde todo mundo se conhece.

Última conversa antes de ir

Devia ter desconfiado que na metade de julho estaria frio. E ali embaixo na praia ainda sopra um vento gelado, muito pior que na praça da igreja. Deve ser castigo divino por eu ter decidido não desenhá-la. As mãos tremem, mas já estou na fase da aquarela, quando isso não é muito problema.

Levanto-me com o desenho embaixo do braço, outra mulher me alcança e pede que eu lhe mostre. Explica que ela e o marido estavam esperando eu terminar e que trabalham com pintura de azulejos. São os simpáticos proprietários da loja Lu Timtim Atelier, na casa verde aí do desenho.

E que bom que ainda existem pessoas que conversam com estranhos.


  • Pena de bambu
  • Nanquim
  • Aquarela em pastilha Van Gogh Talens
  • Papel Canson Montval 300g/m² A3

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