Centro Leste, só que de dia

Desenho a traço em nanquim mostrando esquina de duas ruas com prédios, carros estacionados e postes
Esquina das ruas Victor Meirelles com Nunes Machado. De manhã, a região é calma

É uma manhã de sol em um sábado de 2019 quando chego com o material de desenho e me instalo encostado ao muro da Escola Antonieta de Barros, no Centro de Florianópolis.

Me fazem companhia os lambe-lambes e pichações. São lembranças de protestos de 2018 que exigiam que o Estado desse uma solução para o prédio em art déco da década de 1940, fechado há treze anos e sem manutenção.

Desenho pronto. Região tem sido alvo de planos de “revitalização” que incluem retirada dos paralelepípedos

É a terceira vez que desenho na área. As outras duas foram de noite, sentado em uma mesa na calçada da hamburgueria Desvio (antigo Picnic Food), com toda sorte de interrupções: amigas e amigos passando, conversas ao redor, o chope esquentando e o sanduíche ficando pronto.

De dia, a história é outra. O movimento perto das 9h é devagar e parte do comércio ainda está fechado. Combinei de me encontrar com o cineasta Marko Martinz para gravar cenas de um documentário sobre o Urban Sketchers Florianópolis, que estreou no início de setembro na TV da Assembleia Legislativa de SC.

O desenho seria recriado em um bordado da artista têxtil Carol Grilo para a capa do fanzine Gusp! de setembro de 2019, veículo que nasceu e acabou naquelas esquinas.

Reprodução do desenho em bordado preto sobre tecido branco
Em vez de nanquim, agulha e linha. Bordado de Carol Grilo sobre o desenho original

Volta dos frequentadores

A região, apelidada de Centro Leste, sofreu uma queda de movimento depois que o terminal de ônibus Cidade de Florianópolis, três quadras abaixo, foi transferido para o atual Terminal de Integração do Centro, a meio quilômetro dali. Sem o vai e volta de passageiros, parte do comércio fechou.

A recuperação começou com a abertura de novos bares, do qual o Tralharia foi o primeiro, seguido por pelo menos outros cinco dentro de uma área de duas quadras. Logo, o ponto passou a atrair uma multidão de pessoas, a maioria jovens. Também não demorou para vir a reação do Estado, com restrição do horário dos bares e batidas da polícia.

Enquanto desenho, Marko me faz perguntas e vai registrando minhas falas em um gravador portátil. A que está no documentário é se a visão de quem desenha é uma grande angular (que vê o todo) ou uma teleobjetiva (que foca nos detalhes). Não lembro minha resposta, está no filme, mas hoje eu responderia que é uma teleobjetiva com um microfone que vai ouvindo tudo o que está em volta.


  • Tira-linhas Dreaming Dogs
  • Nanquim
  • Papel Canson Montval A3 300 g/m²

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