Quando a limpa nos arquivos quase vira uma sessão de regressão

Desenho de um homem sentado abraçado em um dos joelhos
Acrílica sobre papel offset. Novembro de 2003

Passei os primeiros dias de 2021 confinado em um aposento de três por quatro metros. Era hora de botar ordem na mapoteca, aquele gaveteiro largo com gavetas finas que serve para guardar desenhos e mapas (daí o nome).

Fui confrontado com vinte e cinco anos de produção. O passado ia aparecendo sem aviso, folha por folha. Treinos de caligrafia, obras finais, originais de ilustrações, versões alternativas de encomendas há muito já entregues, esboços de pinturas e desenhos soltos.

  • Foto do autor com um amontoado de papéis
  • Ateliê com a mapoteca aberta e os papéis espalhados
  • Gaveta da mapoteca arrumada, com itens agrupados e identificados

Enchi dois sacos de lixo de 50 litros, daqueles azuis. Coisas que não valiam a pena guardar porque a vida é curta, o metro quadrado é caro e eu tenho alergia a poeira. Mesmo assim, boa parte da produção voltou para a gaveta.

Progresso? Nem sempre

Não nego: me surpreendi com alguns desenhos. Difícil falar em “evolução”. A gente vai, volta, muda de estilo, troca o instrumento, refina os gostos e só lá pra frente consegue ver o que tem valor.

  • Pintura em acrílico de uma mulher de costas, envolvida em um pano branco
  • Desenho em nanquim mostrando um homem de barba, em pé, de lado, apoiado em uma moldura
  • Desenho a grafite de uma mulher sentada

A única constante nesse tempo foram as sessões de desenho com modelo vivo, ainda que com interrupções (na mais longa, foram dez anos). É fácil reconhecer as primeiras tentativas. O desenho é duro, as figuras parecem bonecos e há um acúmulo de linhas feitas sem pensar, como se a sobreposição fosse resultar nas formas certas.

Um ou dois meses depois, aparece uma melhora. A gente aprende a observar e a pensar antes de encostar o o lápis no papel. Mas é só dar um tempo sem desenhar que, na volta, é como retornar à academia de ginástica depois das férias. Custa para recuperar a prática.

  • Retrato a lápis de um rapaz com a mão no rosto
  • Pintura em acrílica de um homem sentado em uma cadeira de plástico, com os dois pés no assento
  • Desenho a grafite de uma mulher deitada
  • Desenho a crayon de um homem abaixado, com uma das mãos no chão

A arrumação não foi o melhor jeito de gastar as preciosas horas de férias, mas me deu noção do que eu já fiz e ideias para frente.