Desenho a grafite preto com luzes em branco de uma mulher deitada, com a cabeça apoiada em uma plataforma

Desenho com modelo vivo e repelente

Trinta centímetros da estante onde guardo os cadernos de desenho são ocupados por exemplares caseiros. Compro o papel e mando encadernar com espiral em uma birosquinha de xerox qualquer. Faço isso para que fiquem baratos, que eu possa usá-los sem ficar calculando quanto cada página me custa (na verdade, eu calculo: entre quinze e quarenta centavos cada folha A3, dependendo do tipo de papel).

São esses os cadernos que eu levo para as sessões com modelo vivo, onde gasto muito papel. Não é incomum voltar para casa com mais de vinte desenhos, dentre eles esboços onde mal se distingue a cabeça do joelho.

A última sessão registrada nos cadernos é de novembro de 2019. Já é hora de voltar: o grupo que acompanho conseguiu uma sala espaçosa na faculdade de artes visuais da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina).

  • Esboço de uma mulher em pé com as mão à frente, na altura da cabeça.
  • Desenho de uma mulher em pé, de costas

A maioria das sessões desse tipo começa com poses rápidas, de 1 a 2 minutos, ou com exercícios de aquecimento, como desenhar sem olhar o papel. O objetivo é que as pessoas suspendam o julgamento sobre seu próprio trabalho, capturem o movimento e não fiquem presas em detalhes.

Tenho o costume de escrever a data e o tempo da pose em todas as folhas. Com o tempo, dá para acompanhar as mudanças no meu traço, o que é diferente de evolução, coisa que não acredito muito em arte.

Depois, as poses vão ficando mais longas. Quando o tempo permite, chegam a 15 minutos ou até meia hora. É quando consigo capturar detalhes, como as tatuagens da modelo e até o frasco do repelente, item indispensável no campus construído ao lado do mangue.

  • Desenho a grafite preto com luzes em branco de uma mulher deitada, vista de costas.
  • Desenho de uma mulher apoiada de costas, com o joelho no chão e a cabeça voltada para trás.
  • Desenho de uma moça sentada, com as costas apoiadas na parede.

No fim, os quase trinta participantes vão abrindo os cadernos ou espalhando as folhas pela mesa. É instrutivo ver como cada um capturou a mesma pessoa, na mesma posição, usando materiais e estilos diferentes.

Uma moça compara meus rabiscos com os do artista austríaco Egon Schiele. Discordo, mas, ainda que eu seja bem mais pudico que ele e nem de longe tenha a mesma qualidade de traço, já basta para eu voltar feliz para casa depois de três anos e meio sem praticar a figura humana.

Me despeço, pulo a cerveja pós-sessão com o pessoal e vou direto para casa. Sexta é dia de acordar cedo.


Sobre os desenhos

Esboços feitos em uma noite quente de uma quinta-feira, 9 de março de 2023.

  • Lapiseiras de 5,6 mm com minas de grafite, sanguínea, carvão sintético e giz
  • Caderno caseiro com folhas de papel kraft 110 g/m²
  • 32 × 42 cm

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