Há exatamente um ano, achávamos que a pandemia acabaria rápido

Foi em março do ano passado que nos demos conta conta de que o surto de Covid-19 era mais sério que o de H1N1 de doze anos atrás. A doença causada pelo coronavírus, mesmo com as notícias sobre a gravidade dos sintomas, dava a impressão de que ficaria confinada à Ásia ou que, no máximo, atingiria uma parcela pequena da população brasileira.

Na sexta-feira de 13 de março de 2020, bato ponto no Desvio Bar, no centro leste de Florianópolis, para o que seria, até agora, meu último rolê noturno (ou diurno): o lançamento do sexto número do fanzine Gusp. Na segunda-feira, 16/3, pego os equipamentos do trabalho e levo-os para casa. Na quinta-feira, 19/3, o governo do estado decreta o lockdown.

Um mês depois, faço um esboço do home office improvisado e registro minhas impressões em um breve texto, que reproduzo abaixo. O desenho e o relato estão no livro 60 dias dentro de casa – Um diário ilustrado do isolamento, que reúne meu esforço de continuar produzindo sem poder sair para a rua. Conforme o tempo vai passando, ouço das pessoas que eu deveria lançar o volume 2, o “180 dias” e até o “600 dias”.

Lendo o texto agora, percebo um otimismo que já não tenho mais (ali comparo até o café feito em casa com o da máquina do trabalho). Não havia nem chance da vacina sair logo, mas parecia que lá pela metade do ano estaríamos com nossas vidas de volta.

Corta para 2021. Nesta semana que passou completamos um ano de isolamento e distanciamento social, com recorde diário de mortos. Até uns poucos meses, só uma meia dúzia de pessoas próximas haviam ficado doentes de Covid-19. Hoje, a quantidade aumentou e tenho conhecidos que morreram.

Não vou escrever o óbvio – que é necessário se cuidar, que presidente e ministros são medíocres e perversos etc. As notícias estão aí.


Mesa do home office

Desenho do home office mostrando mesa com computador e cadeira. Feito a caneta tinteiro preta sobre fundo branco

Completo um mês batendo ponto dentro de casa, sentado nesta mesa.

Era uma segunda-feira, 16 de março, quando fui ao trabalho pegar o computador e trazê-lo para casa. A orientação da empresa era que qualquer pessoa que tivesse viajado, frequentado aglomeração ou tido sintoma de gripe fizesse o mesmo. Ainda com tosse, me encaixava neste último grupo. Um colega me entrega a máquina, teclado, mouse, meus fones de ouvido e um rolo de cabos. Me dá também a mesa digitalizadora, que recuso porque não vai ter espaço.

Em casa, instalo a parafernália na mesa do ateliê da minha mulher.

O café aqui é melhor. Às vezes a gata mimada mia alto para pedir comida, quem não convive com ela pensa que está desnutrida. Numa das reuniões por videochamada, um cliente estrangeiro vê a máquina de costura antiga atrás de mim e me pergunta se eu costuro. No lugar dos almoços de meia hora nos restaurantes perto do trabalho, levo mais de duas horas, desde começar a cortar os ingredientes até terminar de comer.

Na quinta-feira, 19 de março, entram as medidas de restrição e todos os colegas começam a trabalhar em casa.


O trecho acima é parte do livro 60 dias dentro de casa – Um diário ilustrado do isolamento, que está disponível na Livros & Livros (Florianópolis), Banca Curva (São Paulo), Humana Sebo e Livraria (Chapecó) e Megafauna (São Paulo).