Desenho exige preparo (físico)

Fotografia tendo ao fundo um casarão verde claro com ornamentos em branco. A fachada é simétrica com duas janelas. Na calçada em frente, em primeiro plano, Ivan segura o desenho pronto
Casarão de 1913 na rua Hermann Blumenau, no Centro de Florianópolis

Quem tem menos de trinta anos não sabe o privilégio que é poder ler um livro encostado no sofá ou varar a madrugada jogando League of Legends esparramado em uma cadeira.

Dor na coluna demora para curar e estraga o humor de qualquer um. E dá-lhe despesas com ortopedistas, ressonâncias, raios-x, analgésicos, antiinflamatórios, fisioterapia e pilates.

Assim como os fantasmas do século 19 na Escócia andavam pelos castelos arrastando correntes, a gente fica condenado a perambular pra cima e pra baixo segurando uma sacolinha de farmácia ou uma pasta de exames.

A casa mais enfeitada

Uma dor na lombar na véspera do encontro do Urban Sketchers Florianópolis não é boa notícia. Antecipo que serão duas horas difíceis sentado em um banquinho duro e alto. Desenhar em pé é ainda pior.

Desenho a nanquim, em preto e branco, de um casarão da rua Hermann Blumenau
Fachada tem os ornamentos mais rebuscados entre os imóveis da rua

O tema do dia é o casario da rua Hermann Blumenau, no trecho entre as avenidas Mauro Ramos e Hercílio Luz. O conjunto tem uns quinze imóveis do início do século 20 apertados um contra o outro.

Segundo a tese Florianópolis: Conjuntos históricos urbanos tombados, o endereço tinha o nome de rua Uruguai até 1931. Foi a antiga ligação do Vale das Olarias, na região da atual avenida Mauro Ramos, ao antigo Largo Municipal, onde hoje fica a Praça dos Bombeiros.

Eu devia abreviar o tempo de desenho, mas escolho a casa mais ornamentada – e complexa – da quadra. A de número 246, sede de uma consultoria ambiental. A data está escrita à mão no topo da fachada: 1913.

Pena de bambu

Fotografia do artista sentado na calçada com a prancheta no colo segurando um pote de nanquim na mão esquerda e a pena de bambu na direita. O desenho está em andamento, na segunda janela
Pena de bambu pode ser feita em casa e proporciona um traço irregular, mas controlado

Retomo a pena de bambu, instrumento que usei no primeiro encontro do USk Florianópolis de que participei. O fluxo de tinta é mais lento que o do tira-linhas que tenho usado ultimamente. A mão vai mais devagar, o traço é mais pensado.

Tento manter os ombros relaxados e o abdômen contraído para não forçar a coluna. Finalizo o registro aplicando as sombras do lado direto do casarão com um pincel.

Ao terminar o desenho, me dou conta de que a lombar não incomodou. Na verdade, sinto até um alívio. Aí, lembro que estou há três dias tomando analgésico para a cervical. “Foi isso que ajudou, com certeza”, é meu diagnóstico de leigo.

Considerando que ainda tenho um braço, dois joelhos e um quadril que ainda não doem, me dou por satisfeito.


  • Pena de bambu
  • Pincel oriental tipo fude
  • Nanquim tipo sumi
  • 30 x 40 cm
  • Papel Hahnemühle Veneto 325 g/m²

2 comentários

  1. Realmente espetacular esses comentários! Meu tempo de criança. Tudo vindo a minha mente. Morava na Gal. Bittencourt, fundos para Av. Hercílio Luz. Esse casario lembro-me dele perfeitamente. Lindo!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *