Centro de Convivência: lembranças que vêm com o desenho

Foto do caderno com o desenho do Centro de Convivência em primeiro plano tendo ao fundo o Centro e a banca de jornais
Centro de Convivência, hoje abandonado e com infiltrações, já foi tão frequentado como o Centro de Eventos

Foram só sete pessoas, mas é um recomeço. No último sábado, o Urban Sketchers Florianópolis fez o primeiro encontro presencial depois da pandemia. A organização escolheu a UFSC, com áreas livres entre os prédios, para evitar aglomeração.

Escolhi desenhar o Centro de Convivência, com a banca de jornal em frente. Vendo o prédio de 1970 abandonado e caindo aos pedaços, é difícil imaginar que ele abrigou de agências bancárias a galeria de arte, de barbeiro a estúdio de foto, de livraria a cabelereiro. O único estabelecimento que segue firme é o Correio. Sempre que vou lá, fico preocupado que o teto um dia desabe em cima dos funcionários.

Visitas frequentes

Com quinze anos de estudos na UFSC – dez no Colégio de Aplicação e cinco na faculdade de Jornalismo – além de outros treze na Fundação Certi, também no Campus, passei muito pelo Centro de Convivência.

Parte da compra de materiais escolares, por exemplo, era feita na livraria da Feesc, no Convivência. Costumava levar mais papelaria que livros porque a especialidade da loja eram os títulos acadêmicos das engenharias.

Sentado na rótula, com o desenho ainda na metade

Visual com toque da família

Também era o lugar para cortar o cabelo e pagar taxas no Besc. Sempre com filas – não existia internet, caixa automático e muito menos home banking.

Quando não tinha tempo de ir até a Trindade ser clicado pela senhora da Foto A, providenciava as 3 x 4 para documentos na Foto Pixote, no segundo andar, ainda que achasse o dono pouco simpático.

As fachadas de vidro da barbearia e da galeria de arte tinham a identidade visual criada pelo departamento de projetos da UFSC. Ambas foram feitas por minha mãe, que combinou silhuetas estilizadas de tesoura e pente para o barbeiro e um padrão de retângulos e tipografia para a galeria. Ela mesma cortou os adesivos para a galeria, numa época em que plotter era equipamento de ficção-científica.

Desenho mostrando duas laterais do Centro de Convivência com a banca de jornal em primeiro plano
Crayon preto, branco e sanguínea sobre papel kraft no 72º encontro do Urban Sketchers Florianópolis

We want the airwaves

No final do ensino médio, me meti numa reunião da 107 FM, rádio pirata do diretório dos estudantes instalada em uma salinha do segundo piso. Eu e um colega de turma saímos de lá com um horário noturno. Demos o nome de “Musicofagia” para o programa, uma justificativa para o fato de tocarmos os poucos discos e fitas em que conseguíamos pôr a mão. Nossa setlist ia de Pantera a Sugar Minott. A rádio durou pouco, menos pela fiscalização do que pela desorganização e problemas com os equipamentos.

Foi no pequeno auditório que aconteceu a cerimônia de formatura da minha turma de Jornalismo, um grupo de uma dúzia de pessoas de onde saíram fotógrafos, correspondentes de guerra, telejornalistas, repórteres, editores e até um designer de UX.

Hardcore e quadrinhos

No início da década de 1990 o lugar onde funcionava o restaurante serviu de palco para um festival de hardcore chamado Fuck off Poperô (“poperô” era o apelido maldoso para dance music, por causa do refrão de Pump up the jam do Technotronic). Negócio mal organizado num salão vazio, iluminado com lâmpadas fluorescentes acesas por quase todo o show. Cheguei sozinho, encontrei poucos conhecidos e fui embora depois da segunda ou terceira banda.

A banca de jornal onde comprava quadrinhos não era esse depósito de tranqueira que aparece no desenho em primeiro plano. Eu sabia até os dias em que as novidades chegavam: às quartas e sextas. Com a faculdade a cem metros dali, minha salvação financeira foi que o estoque de HQs da banca sempre foi fraco.


  • Conjunto de lapiseiras 5,6 mm com minas branca, preta e sanguínea
  • Sketchbook 32 x 42 cm em papel kraft 110 g/m²