As coisas que não aparecem no desenho

Ao fundo, estrutura da bica da carioca composta de tanque com blocos para as lavadeiras e uma pequena construção coberta. Em primeiro plano, sketchbook com o desenho
Bica da Carioca, reformada em 2018. Tanque era usado pelas lavadeiras do bairro.

Soa estranho um lugar chamado Bica da Carioca em São José, cidade colada em Florianópolis e distante mil quilômetros da antiga capital do Brasil. O portal da prefeitura limita-se a informar que “carioca” tem origem no termo “kara’iwa”, que significa “casa de branco”.

Gerações de trabalhadoras e donas de casa lavaram e torceram muita roupa nas estruturas do tanque. Uma delas, Alcina Júlia da Conceição, foi homenageada na inauguração da reforma em 2018, que coincidiu com seu aniversário de cem anos. Conceição, negra, era a única das lavadeiras ainda viva para lembrar das histórias.

História

O lugar era apenas uma nascente quando foi transformado em lavadouro público em 1840. Em 1940, as pedras foram substituídas por estruturas de concreto. Na revitalização de três anos atrás, ganhou pintura nova, iluminação e deck. Apesar da bica ficar atrás do Centro Histórico de São José, é um espaço que só os moradores conhecem.

Foi pelo interesse histórico e pelo visual que o Urban Sketchers Florianópolis escolheu o local para um encontro de desenho em agosto de 2019. É um patrimônio raro no Estado, com similares em São Francisco do Sul e Laguna.

Estrutura cheia de blocos foi interessante de desenhar. Pastel seco sobre papel kraft

Visitantes

No dia do encontro, o local está vazio. Alguns participantes já desenham quando aparecem uma moça, um rapaz e uma senhora. A tarde nublada, prometendo chuva, não é um bom dia para passear. E as duas mulheres têm um ar preocupado.

O rapaz percebe as pessoas com cadernos, lápis e pincéis, e pergunta que tipo de trabalho fazemos. Respondo que nos reunimos de vez em quando para desenhar pela cidade. Em seguida, quer saber quem somos e qual nossa formação. Por coincidência, todos que estão desenhando ao redor são arquitetos, mas falo que o grupo é mais diverso.

— Vocês moram por aqui? — pergunto, curioso de saber quem frequenta esta antiga fonte de água potável, hoje resumida a um pequeno córrego de cheiro suspeito. Ele, que é brasileiro, diz que trouxe as duas mulheres para conhecerem o local e que elas vieram da Venezuela.

Ingenuamente, pergunto se estão aqui a passeio. A mais jovem responde que sim, sem sorrir. Um segundo depois, imagino se não saíram do seu país para procurar emprego ou fugir do colapso econômico.

Comento que era a primeira vez que eu visitava a bica, apesar de morar na cidade ao lado. O rapaz recomenda visitarmos o trapiche nos fundos da Câmara de São José dali a alguns meses quando for inaugurado. Se despedem e vão embora por uma escadaria estreita e íngreme que leva à rua de cima.

Escolho um ângulo, abro o banco e começo o desenho com pastéis secos. Ao ir embora algumas horas depois, passamos por trás da Câmara e vemos o tal trapiche. Já é de noite e o vento está gelado. Não dá para enxergar muita coisa e voltamos para casa.


  • Pastel seco Koh-I-Noor e Daisō
  • Papel kraft 32 x 42 cm, 110 g/m²