Sobre gatos, jabutis e humanos

Sobre gatos, jabutis e humanos

Gatos são criaturas bastante delicadas e estão sujeitos a vários tipos de enfermidades, mas nunca ouvi falar de algum que sofresse de insônia.

Joseph Wood Krutch, escritor e naturalista

Nos meus quarenta anos convivendo com gatos – mais de quinze ao todo, do siamês Bertolino à bicolor Beterraba – confirmo para qualquer um que gatos realmente dormem muito. E, infelizmente, vivem pouco.

Os primeiros, lá nos anos 80, não só tinham acesso livre à rua, como eram proibidos de entrar em casa. E nunca passavam dos seis anos. Na maioria das vezes, sumiam. Hoje sei que provavelmente foram atropelados, envenenados ou ficaram doentes e se esconderam, como fazem os felinos quando pressentem que sua hora vai chegar.

Mais recentemente, esses tigres em miniatura passaram a ser alimentados com ração e a contar com veterinários, exames e toda uma gama de procedimentos inacessíveis até mesmo a uma significativa parcela da população brasileira humana. Com isso, a expectativa de vida ultrapassou os dez anos.

Mesmo assim, acho pouco. Gatos deveriam ser como jabutis. Se adotado quando fôssemos ainda crianças, o animal nos assistiria festejando a aprovação no vestibular, a formatura, a entrada no primeiro emprego, teria de se acostumar com a namorada ou namorado, se adaptaria à mudança para um novo lar com o casamento e veria seus donos ficarem mais em casa depois da aposentadoria.

E, se vivesse mais um pouco, estranharia porque o corpo do dono ficou frio, obrigando-o a procurar por outra almofada aquecida. Essa é a hora em que parte da herança seria direcionada a lhe proporcionar uma vida digna, meio como a gata Choupette.

Tudo, claro, achando que a missão da espécie humana é unicamente lhes providenciar alimentação pontual, almofadas que afundam com o peso, um ambiente com temperaturas amenas e uma rotina sem sobressaltos.

Enquanto eles não chegam a essa longevidade, vamos seguindo regularmente com hemogramas, ultrassonografias, procedimentos, remédios e rações especiais, que Beterraba já tem quase o equivalente a 70 anos humanos. Se você tem adolescente no final do ensino médio em casa, é hora de ter uma conversinha séria com ela ou ele sobre seguir carreira em geriatria veterinária.

Aliás, isso me lembra que eu, que ajudo a bancar esses cuidados, estou devendo visitas à oftalmologista, à dentista, ao cardiologista e à nutricionista.


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