A crítica cultural ainda é importante?

Capa do livro “Jornalismo Cultural“, do jornalista Daniel Piza, mostrando detalhe de uma pintura de Edgard Hopper com uma mulher sentada em um trem lendo um livro

Houve uma época, lá pela década de 1990, em que peguei o costume de comprar o jornal Gazeta Mercantil às sextas-feiras.

Na cobertura econômica, a especialidade da Gazeta, eu passava os olhos e lia uma matéria ou outra. O verdadeiro motivo da minha visita à banca era o caderno Fim de Semana, editado por Daniel Piza, junto com um time de colaboradores.

Cinema, música, literatura, design e outros assuntos eram tratados como são (ou deveriam ser): objetos de crítica e de análise. Produtos da nossa cultura, enfim. As matérias eram extensas e bem escritas. Descobri muita coisa ali.

Relevância

Daí que neste livro, Jornalismo Cultural, Piza (morto em 2011) conta como foi produzir o caderno e esmiuça um pouco essa profissão que hoje parece ter perdido o sentido.

Por um lado, proliferaram-se booktubers, blogueiros e afins. Alguns até ultrapassam os veículos tradicionais em quantidade de seguidores. Muitos, porém, se interessam mais em ganhar “recebidos” das empresas do que em emitir uma análise bem fundamentada (embora isso já existisse quando a crítica cultural era ofício exclusivo de jornalistas, como conta Piza em uma passagem).

Por outro, o custo de uma escolha cultural errada por parte do público é muito pequena – hoje qualquer coisa está disponível mediante uma assinatura ou um valor baixo. Se o filme ou disco não lhe agradar, a pessoa perde só o tempo. O papel do crítico como alguém que indica o que assistir, ler ou escutar já não parece tão necessário.

O livro foi escrito em 2003. Não existiam serviços de streaming de filmes ou de música, o YouTube seria lançado dali a dois anos e o Kindle, em seis. E o autor não cita quase nada que não seja europeu, norte-americano, branco e masculino.

Mesmo assim, as questões que Piza levanta a quem pretende se especializar na tarefa de analisar produtos da indústria cultural ainda são válidas. Além do óbvio – bom texto e preparo (para o qual sugere autores e veículos), ele escreve:

Fugindo às oposições simplistas entre elitismo e populismo e entre internacionalismo e nacionalismo e apostando na riqueza técnica e intelectual de sua profissão, o jornalista cultural poderá recuperar pelo menos parte do papel que costumava ter, o de ‘fazer cabeças’ no bom sentido, incitando o leitor a ter opinião e usar melhor seu tempo.

Baixas

A Gazeta Mercantil fechou em 2009, a editora Abril praticamente acabou, levando a revista Bravo! junto, e os cadernos culturais dos jornais foram emagrecendo e perdendo relevância.

Aqui em Florianópolis, melhor nem comentar. O Diário Catarinense, cuja cobertura cultural já não era das melhores, teve a redação encolhida e se transferiu para a internet, de onde noticia acidente de trânsito e previsão do tempo. O Notícias do Dia, que tinha o ótimo caderno Plural (a cargo das editoras Dari Pasternak e Néri Pedroso), hoje é um vergonhoso panfleto bolsonarista.

Apesar da redução dos espaços de crítica, parece que hoje as fontes de informação estão mais espalhadas. Surgiram as revistas impressas Quatro cinco um e Serrote, o portal Gama e tantos outros.

No Estado, a última edição do jornal Ô Catarina, da Fundação Catarinense de Cultura, saiu há três anos e a da Subtrópicos, da UFSC, em 2016, mas a universidade ainda mantém a revista online Fora do Eixo. Outras iniciativas recentes são a Gulliver, cujo último post foi em julho do ano passado, e o portal ArqSC.

E você? Acompanha a crítica?


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