Autor conta história de doze manuscritos antigos, cobrindo período de mil anos

A caprichada versão brasileira do livro Manuscritos Notáveis, do inglês Christopher de Hamel, é para ser lida em cima da mesa. Suas quase 700 páginas dão ao volume de capa dura 4,5 cm de espessura e mais de um quilo.

Isso, porém, não é nada perto da presença física dos objetos dos quais o autor trata. Cada um dos doze capítulos é dedicado a um manuscrito que Hamel selecionou por sua importância histórica, raridade ou beleza. O maior deles mede meio metro de altura, 30 cm de espessura e 34 kg. Mesmo os menores estão longe de ser de bolso pelos nossos padrões atuais. Afinal, couro é mais grosso e pesa mais que papel.

O autor queria que o título fosse "entrevista com manuscritos" e logo se percebe por quê. À maneira de perfis jornalísticos, cada capítulo abre com a descrição de como foi arranjada a "entrevista", da permissão de manusear o volume (manuscritos raros costumam ter acesso restrito) à descrição das bibliotecas e museus na Europa e Estados Unidos onde ele repousa. Embora alguns deles estejam digitalizados e com acesso fácil nos sites das instituições, a intenção de Hamel foi oferecer a sensação de manuseá-los e o impacto da caligrafia e das ilustrações, chamadas de iluminuras.

Os estilos de caligrafia 

Os doze manuscritos reunidos no livro cobrem um milênio de história, começando no século 6. Não dá para documentar a evolução da caligrafia só pela dúzia de exemplares reunidos por Hamel, mas eles oferecem bons exemplos da diversidade de estilos em épocas e regiões diferentes. É uma perspectiva diferente dos manuais de caligrafia, que classificam os tipos de letras por períodos bem delimitados. Em se tratando de escrita à mão, nem tudo cai tão facilmente em categorias. A quem se interessa por caligrafia, sugiro acompanhar a leitura com uma obra de referência (a minha foi A Arte da Caligrafia, de David Harris, já esgotada). 

Caligrafia uncial no Evangelho de Santo Agostinho. Na época, não se separavam as palavras

Já no primeiro manuscrito, dos Evangelhos de Santo Agostinho (séc. 6), temos um exemplo de Uncial, sem os espaços entre as palavras que só surgiriam séculos depois. Ficamos sabendo que esse estilo, de letras grandes, não era bem visto por São Jerônimo, tradutor do texto reproduzido no evangelho, por desperdiçar espaço. 

Na Arateia de Lenden (séc.9), uma cópia de um tratado de astronomia ainda mais antigo, os escribas tentaram reproduzir o estilo de caligrafia original, em maiúsculas rústicas. Curiosamente, alguém se deu o trabalho de reescrever todos os textos nas margens em outra letra – a caligrafia gótica, mais legível na época. O leitor de hoje, porém, provavelmente acharia a versão original mais fácil de ler. Há manuscritos cuja caligrafia não se encontra facilmente nos manuais. É o caso das minúsculas visigóticas usada na Espanha e Portugal, derivada da cursiva romana (no manuscrito Beato de Morgan, séc. 10).

Página do Beato de Morgan com a rara minúscula visigótica. O estilo de iluminura tem similaridade com arte etíope

Linha de produção 

A ideia romântica de um escriba solitário, enclausurado num mosteiro, cai por terra logo no início. Embora obras mais antigas fossem realmente produzidas em locais religiosos, há livros feitos em oficinas especializadas, com equipes de escribas e iluminadores trabalhando em separado, muitas vezes com encomendas para diversos mosteiros. Sabe-se disso hoje comparando a caligrafia e, no caso das iluminuras, o traço. 

O leitor também percebe o trabalho colossal que era produzir um manuscrito, o que dá uma ideia de quanto deviam ser valiosos na época. A pele de um bezerro rende apenas duas folhas de pergaminho. Para o colossal Codex Amiatinus, do século 8, o autor calcula que foram necessários 515 animais. 

Cada livro, uma aventura 

Dificilmente as obras ficaram todos esses séculos no mesmo lugar. Venda, roubo, contrabando, herança e transferências foram os meios pelos quais eles trocaram de mãos. O Semideus de Visconti, por exemplo, foi surrupiado da França por um embaixador russo durante a Revolução Francesa. Acreditava-se que As Horas de Joana de Navarra havia sido tomado da família Rothschild pelos nazistas, mas o próprio autor descobriu documentos comprovando que os proprietários foram ressarcidos, o que fez a França pagar uma quantia à Alemanha para que o volume continuasse na biblioteca nacional. 

Perdas 

Iluminura incrivelmente detalhada do Livro de Kells, tesouro nacional da Irlanda

As idas e vindas das obras também causaram cicatrizes. É comum especialistas verificarem páginas suprimidas, muitas vezes para revenda a antiquários, embora também ocorram perdas em reencadernacões. Há casos, como o do Codex Amiatinus, em que foram recuperadas páginas soltas de uma outra versão do mesmo manuscrito. Há folhas que hoje podem estar decorando a parede de alguém que ignora seu valor. A Carmina Burana tem um volume separado, a Fragmenta Burana, só para páginas consideradas pertencentes ao livro original. 

Por questões práticas, um manuscrito muito grande pode ser dividido, como é o caso do Livro de Kells (séc. 8), tesouro irlandês que foi separado ainda no século 20 em quatro volumes, correspondentes a um evangelho cada. Assim, poderiam ser exibidos simultaneamente, já que os visitantes são proibidos de tocá-los.