Cartaz tipo lambe com a frase “Toda lembrança preservada é temporária” juntamente com a foto de um asteroide. Está fixado em um muro abandonado com registros de entrada de água, pedras e entulhos.

O fim do passado está nos muros

Às voltas com a digitalização dos slides da família, comecei a prestar atenção nas pessoas desconhecidas que foram capturadas por acidente no fundo ou nos cantos das fotos. Ampliadas na tela do computador, é mais fácil percebê-las.

São turistas e moradores que nunca vão se ver nesses retratos involuntários de quase meio século atrás. Os adolescentes desfocados no canal da Barra da Lagoa, por exemplo, devem estar beirando os 60 anos. Continuariam morando no bairro ou se mudaram com os filhos para um prédio na cidade? Quem sabe se o homem forte sem camisa na porta de uma casa em Mariana (MG) encontrou seu fim em uma briga de bar ou em uma cama de hospital? O menino de uniforme andando com uma pasta escolar em frente a uma mercearia em Tiradentes pode tanto ter virado professor quanto motorista.

Fotografia antiga de um menino andando em frente a uma mercearia numa construção mais antiga ainda
Duas pessoas desconhecidas que estavam na frente da câmera dos meus pais em 1978

Por quanto tanto tempo esperamos deixar registros de nossa existência? Por mais que possam durar algumas centenas de anos, lembranças não são eternas. Nada é. Muito menos esses slides, nos quais nem as pessoas capturadas sabe que aparecem, nem quem tirou a foto as reconhecem.

Cartaz tipo lambe colado em um muro pixado. A frase escrita à mão diz “Preservar o passado. Adiar o fim.”
“Preservar o passado. Adiar o fim.”

Um livro chamado Escolha a Catástrofe, que li aos treze anos numa edição do Círculo do Livro, me fez dar conta do quanto a vida, a civilização humana e até o planeta Terra são finitos. No ensaio de quase 400 páginas, Isaac Asimov analisa os cenários de um possível fim do mundo. Começa pela extinção da civilização humana e termina especulando sobre o fim do universo por entropia.

Livro “Escolha a Catástrofe”, de Isaac Asimov, cuja capa tem uma foto de canyons com fogo sobreposto
Da queda da civilização ao fim do universo: angústias para todos os gostos

Essa leitura leve e descontraída, cujo exemplar ainda tenho na estante, me trouxe novas preocupações além das provas do colégio. De repente, meteoritos, vulcões e outros cataclismos improváveis de ocorrer no curso da minha vidinha aqui em Florianópolis se tornaram ameaças. O temor sumiu na adolescência, mas os assustadores vídeos de um meteoro explodindo no céu da Rússia em 2013 me relembraram do quanto somos vulneráveis.

Apesar da efemeridade da vida, continuo a guardar as lembranças materiais que provam que já andamos por esta terra que um dia também há de desaparecer. Quem irá vê-las daqui a cem anos?

Parte da frase “Preservar o passado. Adiar o fim” escrita com nanquim em letras grossas. A tinta ainda está molhada e se acumula em alguns pontos.
Caligrafia estilo Neuland

Me deparei ontem em uma newsletter com esta frase assinada por Berta Isla (que eu não sei se é escritora ou personagem), originalmente publicada no jornal Il Foglio). É sobre a Itália, mas serve para nós:

Um país onde conservação e restauro representam o verdadeiro antídoto para as incertezas do futuro

Porém, em algum momento desse futuro, tudo vai ser apagado ou destruído. Quando (e como) chegará esse momento? Quem são as “futuras gerações” para as quais pagamos restauradores, equipamentos e ambientes climatizados? O que são os critérios de “relevância história” e “valor artístico” que usamos para escolher o que merece ser preservado?

No fim, até meu ato de desenhar o bairro e as construções de Florianópolis se encaixe no que Berta Isla escreveu: uma tentativa de fixar alguma coisa nesse lugar onde tudo muda rápido. E faço isso para mim – porque não confio na minha memória.


Sobre as obras

Os lambe-lambes que acompanham este texto serão expostos em três ocasiões em julho e agosto, começando por uma ação no Pântano do Sul neste sábado, 20/7, seguindo com uma exposição no Jardim Botânico e terminando com a mostra Papel de Parede, da Flamboiã.

Os lambes foram feitos a partir de caligrafias digitalizadas, rearranjadas, invertidas e impressas em 60 x 42 cm (folha A2) em jato de tinta.

As frases são minhas e foram escritas com tira-linhas Dreaming Dogs e nanquim.

O corpo celeste esburacado cuja foto aparece em um dos lambes chama-se Lutécia e é um asteroide, não um meteoro. A foto foi tirada pela sonda espacial Rosetta em 2010.

As obras tiveram origem em dois exercícios do grupo de estudos Impossibilidade de Esgotamento:

  • Uma coleta de ocorrências cotidianas. A minha foi vasculhar desconhecidos nas fotos da família.
  • A criação de um lambe-lambe, que são cartazes de baixo custo fixados na paisagem urbana, sujeitos ao tempo e à ação humana.

Até a escrita deste post, os dois lambes permaneciam nas ruas do bairro Córrego Grande. Preservar o passado. Adiar o fim. foi colado no muro de uma casa recém demolida na esquina da rua João Pio Duarte e Silva com a rua Acadêmico Reinaldo Consoni. Toda lembrança preservada é temporária está na mureta que separa o edifício Villa Vitória do canteiro de obras de um novo empreendimento.

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