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A tipografia, área que estuda a forma visual das letras e é um dos principais fundamentos do design gráfico, tem pela primeira vez um evento exclusivo em Santa Catarina. Profissionais e acadêmicos dessa disciplina que une arte e ciência vão se encontrar no Santa Tipografia – 1º Encontro Tipográfico Catarinense, que ocorre 21 de outubro, sábado, no auditório da Faculdade Energia, no Centro de Florianópolis. A programação inclui palestras, debates e cursos com convidados dos três estados do Sul.

A criação de fontes será tema das palestras dos type designers Jefferson Cortinove (Florianópolis) e Henrique Beier (Porto Alegre). Aleph OzuasCristiano Moreira e Jakson Chiappa, de Santa Catarina, conversam na mesa-redonda sobre a impressão tipográfica contemporânea. O lettering e a caligrafia estão representados pelo projeto Pintores de Letras, que resgata o ofício tradicional dos letristas do sul de SC, e pelo coletivo Criatipos, de Curitiba, que além de palestra, ministra workshop no dia anterior

Crescimento

O encontro é organizado por um grupo de professores e profissionais que analisaram que o Estado, com mais de uma dúzia de faculdades de design, já tem público para um evento dedicado inteiramente ao assunto. “A tipografia está crescendo exponencialmente no Brasil, e Santa Catarina tem potencial para fazer parte do cenário nacional” explica Mary Meürer, professora do curso de design da UFSC. De fato, a Bienal de Tipos Latinos, que abrange todos os países da América Latina, teve o dobro de trabalhos brasileiros inscritos em 2016 comparado com a edição anterior. Tanto a participação nacional como o total de inscritos de todos os países têm registrado aumento a cada edição. 

Prova da impressão tipográfica na Imprensa Universitária da UFSC

O cuidado com o projeto se estende também ao material impresso, que já nasce como item colecionável. Para a identidade visual, a designer e professora da Faculdade Energia, Juliana Shiraiwa, uniu a impressão tipográfica tradicional – hoje redescoberta como meio de expressão – ao offset e à impressão digital. Ela e o impressor Mauro Coelho, da Imprensa Universitária, montaram um padrão com as matrizes tipográficas. Depois, esse padrão foi sobreposto às peças, que já haviam recebido a impressão em offset e digital. "Ao buscar uma linguagem para o evento, aproveitamos as diferentes tecnologias que a imprensa universitária disponibiliza, dando ênfase à impressão tipográfica", observa Shiraiwa. "Todo o conjunto foi pensado para que ela fosse o destaque", complementa. 

O Santa Tipografia é organizado pela AllvusFaculdade EnergiaUFSC e Univali, além de empresas apoiadoras como a HSP. Os ingressos, que já estão no segundo lote, dão entrada a todas as atividades, exceto o worskhop do Criatipos, na sexta-feira, que tem inscrição à parte. 

Serviço

Santa Tipografia – 1º Encontro Tipográfico Catarinense
21 de outubro de 2017, sábado, das 8h30 às 18h30
Faculdade Energia - Rua Santos Dumont, 36, Centro - Florianópolis, SC (mapa)
Informações e inscrições: santatipografia.com.br
Programação:
• Palestras:
Jefferson Cortinove (Sea Types, Florianópolis)
Henrique Beier (HarborType, Porto Alegre)
Nicole Castro e Rafael Hoffman (Pintores de Letras, Criciúma)
Cristina Pagnoncelli, Cyla Costa, Eduilson Coan e Jackson Alves (Criatipos, Curitiba)
• Mesa redonda Impressão Tipográfica Contemporânea com Aleph Ozuas (Corrupiola, Florianópolis), Jakson Chiappa e Cristiano Moreira (Oficina Papel do Mato, Rodeio)
• Workshop Criatipos: 20/10, das 10h às 18h em local separado: Univali - Rodovia SC 401, nº 5.025, 2º andar - Business Decor, Saco Grande
Organização: Allvus, Faculdade Energia, UFSC e Univali
Contato: contato@santatipografia.com.br

Capa da Revista Plural feita por Bruno Abatti, Jefferson Cortinove e Ivan Jerônimo

As letras são resultado do trabalho de profissionais que dominam type design, caligrafia e lettering. São eles os responsáveis pelas fontes usadas em seu celular, pela arte da mensagem da sua camiseta ou pelo menu atrás do balcão do seu café preferido. Exatamente por estarem em todo lugar, poucos param para refletir de onde elas vêm.

Por isso, a matéria especial de três paginas que saiu em dezembro na Revista Plural, caderno de cultura de fim de semana do jornal Notícias do Dia, pode ser considerado um feito. O gancho foi o terceira edição do Café com Serifa, encontro para interessados em letras que, entre outros objetivos, tenta tornar essas ocupações mais conhecidas.

Páginas centrais do caderno

Além de entrevistar um profissional de cada especialidade, a editora do caderno, Dariene Pasternak, sugeriu ainda uma criação coletiva para a capa. Como fui o primeiro contato, recomendei várias pessoas. No final, Bruno Abatti, designer e letrista, e Jefferson Cortinove, type designer e poeta, toparam participar.

Dois estudos iniciais. Versão da direita foi a escolhida

Sempre começo um projeto por esboços a lápis. Selecionei os mais promissores e fiz dois ensaios para enviar à editora, que escolheu a composição com os tipos sobre fundo vermelho. O prazo era apertado: aprovação do layout na sexta e entrega da arte definitiva na segunda, com o porém de que eu dava curso no sábado, Bruno participava de um evento de café e Cortinove estava viajando para lançar seu livro Roubadas de um Jardim. Na prática, foi quase tudo feito em um domingo.

O título tinha de ser decidido primeiro. A razão é que minha parte e a do Abatti são feitas à mão, dificultando mudar depois. ”Gente que faz letras”, a frase que foi juntamente com a proposta, emplacou. Isso simplificou bastante as coisas porque não teríamos de refazer o layout.

Lettering feito à mão de Bruno Abatti, pronto para ser escaneado

Bruno Abatti desenhou a palavra "Gente" a lápis e me enviou o arquivo escaneado, que se encaixou perfeitamente. Só preenchemos o miolo dos caracteres com branco para aumentar o destaque.

Jefferson Cortinove, que ficou com as palavras “que faz”, indicou várias de suas fontes. Fiquei entre a Hercílio e a Kareemah e, no fim, decidimos pela segunda. Para dar dinamismo à composição, usamos as versões fina e extra bold, ambas em itálico, e misturando caixa alta e baixa. A forma do Q maiúsculo foi decisiva na escolha. Escutei do próprio Cortinove no segundo Café com Serifa que a curva do traço inferior do Q maiúsculo foi uma das primeiras formas que ele desenhou, inspirado na forma de uma concha.

Caligrafia em estilo contemporâneo, resultado da combinação de materiais

Fiquei com a palavra "letras”, que escrevi com tinta nanquim diluída em água, papel rugoso e um tira-linhas da Dreaming Dogs, combinação que espirra bastante tinta. A ideia era refazê-la para a arte-final, mas a primeira versão me agradou e mantive-a assim. Só precisei escaneá-la com a qualidade adequada (no primeiro layout, usei uma foto).

Cuidado aos detalhes na montagem da contribuição de cada artista

Montei a composição no Affinity Photo, ajustando a posição das palavras e retocando os elementos que se sobrepunham. O objetivo foi dar unidade à mistura de tipos diferentes.

Cortinove representa os type designers na terceira página da matéria

Depois, respondemos às perguntas da repórter Karin Barros, responsável pelo texto, enquanto o fotógrafo Flávio Tin tirava os retratos. O resultado não podia ser melhor: capa mais três páginas, em tinta e em pixel.