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Há cerca de um ano, tive a oportunidade de criar um painel de caligrafia diferente. Foi uma obra temporária e, exceto por uma letra "a" no centro, sem nada escrito. Livre da exigência de legibilidade, me concentrei só na composição e pintei diretamente na parede, sem esboço. Realizei essa espécie de performance caligráfica durante o encontro de desenho Drink & Draw no Sítio, um espaço cultural na Lagoa da Conceição, em Florianópolis (SC).

Detalhe da arte. Traços foram aplicados com tinta guache e pincel

O convite veio do artista gráfico Lese Pierre, um dos organizadores do evento na época – hoje, ele é o agitador do Gag & Draw Jam, no bairro Coqueiros. Dois dias antes, fui ao Sítio conversar com ele sobre a arte. A parede é toda preta e mede cerca de dois metros quadrados. Por ser uma construção antiga, tem irregularidades que aparecem mesmo debaixo da pintura.

Minha intenção era mais convencional: compor uma frase com letras em caixa-alta (maiúsculas), combinadas com linhas horizontais da mesma espessura das letras. O objetivo era formar um bloco visualmente sólido. Para que os escritos pudessem ser apagados, usei tinta guache diluída em água. Queria uma consistência mais líquida e ao mesmo tempo opaca, mas misturei água demais. A tinta escorreu e ficou transparente.

Dois testes para a caligrafia: em cima, a arte mais convencional, com texto. Embaixo, o arranjo abstrato

Avaliando com Pierre esse primeiro ensaio, decidimos partir para algo mais abstrato. Afinal, para que desperdiçar a oportunidade de ter uma parede preta com liberdade total? Comecei a escrever formas derivadas de dois tipos de letras góticas – bastarda e fraktur – tentando formar um padrão uniforme à distância. Decidimos que esse seria o estilo da arte e apagamos tudo com pano e água.

No dia do evento, preparei a tinta com a diluição certa e usei meu pincel mais largo, de 7,6 cm. A partir da letra "a" ao centro, fui adicionando traços ao redor, atento às sobreposições e à composição geral. Dá um pouco de frio na barriga não ter esboço antes. O fato da tinta ser removível não ajudou muito – se eu errasse, quebraria a impressão de espontaneidade. Mas, uma vez que você se dá conta de que não existe "erro" e assume que as coisas podem sair do planejado, fica mais calmo. Fui devagar, pensando antes de cada traço. De vez em quando, me afastava para ter uma perspectiva mais geral.

Hora de posar com a obra ao fundo. O avental limpo atesta a habilidade do artista

No fim, deu tudo certo e ficou pronto em menos de 15 minutos. Trechos do vídeo foram parar na agenda de fim de semana do telejornal local (começa nos 17 s). O painel foi lavado no dia seguinte, mas ficou a vontade de repetir a experiência. Aprendi ainda que deixar as coisas mais soltas, com menos planejamento, pode ser interessante. 

A obra prontaO trabalho de lettering terminado: dez variações de preparo de café

Uma vez que você aprende a diferenciar um café do outro, descobre as sutilezas que existem por trás de uma xícara. Comigo, isso começou com a compra de cafés melhores e ficou ainda mais evidente depois que ganhei um moedor de presente.

Ano passado, fiz um painel em lettering no estilo de quadro-negro para a Pannacotta Bake Shop, uma confeitaria aqui do bairro. Na parte de cima da parede, escrevi vários tipos de preparo de café com um tipo de letra meio art nouveau.

Pensando em uma obra para inaugurar minha série de lettering Substâncias Legais, decidi completar a lista de cafés.

Por enquanto, entraram as receitas oficiais, dessas com nomes italianos. Uma hora vou fazer outra versão que tenha o passado, a média, o pingado, o turco e o florianopolitano "cabeludo" (água misturada diretamente com o pó, sem coar). Abaixo, um pouco das etapas.

Primeiro passoDesenho com tinta branca em cima do lápis
Avançando aos poucosMisturando os estilos
Quase prontoQuase no fim com "au lait". Em alguns nomes, tive de passar uma segunda demão
Últimos detalhesPor fim, um toque de marrom dentro da xícara

Agora, se me dá licença, vou moer um punhado de café.