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Todo praticante de caligrafia acaba desenvolvendo tipos próprios de letra. Geralmente, é uma mistura dos estilos de que ele mais gosta com um pouco do seu próprio traço. A criação muitas vezes é planejada: o artista aperfeiçoa uma letra até chegar a um resultado que possa ser repetido.

Em uma encomenda recente para uma amiga, vi que claramente não dava de usar nenhum de meus estilos usuais. A frase era “Entrego, confio, aceito e agradeço” do professor Hermógenes (1921-2015), conhecido mestre yogue com mais de vinte livros sobre a prática. Ao esboçar como ficaria a encomenda, achei que seria simples: bastaria planejar a disposição da frase e aplicar o estilo que a cliente havia escolhido, com base em outro trabalho meu.

Estudo inicial: estilo de caligrafia pareceu deslocado do sentido da frase

A mensagem, porém, tem uma certa leveza que não combina com o contraste duro do preto do nanquim com a folha. As bordas irregulares das letras, por sua vez, ficariam melhor em uma citação mais incisiva.

Tons claros

Ainda usando o pincel japonês, resolvi diluir o nanquim. A técnica cria uma transição de tons em que as áreas com tinta acumulada ficam mais escuras. O resultado ficou bom, mas suave demais. Aí, tive a ideia de usar o nanquim puro nos traços finos. Deu pra ver que daria certo logo na primeira versão.

Testei diversas diluições de nanquim até chegar a um tom de cinza nem muito escuro, nem muito claro, o que só é possível avaliar depois de seco. Primeiramente, escrevi só os traços grossos, prevendo as letras e o espaço disponível. Esperei a água evaporar e fiz os traços finos com um pincel menor (se eu aplicasse os traços pretos com a primeira camada ainda molhada, os tons iriam se mesclar).

Trabalho pronto. Ao secar, o nanquim diluído cria transições suaves de acordo com o acúmulo de tinta

Escolher a melhor versão dentre a meia dúzia de variações que acabo produzindo exige distanciamento. Por isso, deixo para decidir no dia seguinte. Selecionei a mais legível e com a composição mais equilibrada e combinei a entrega com a cliente, que aprovou. 

Capa da Revista Plural feita por Bruno Abatti, Jefferson Cortinove e Ivan Jerônimo

As letras são resultado do trabalho de profissionais que dominam type design, caligrafia e lettering. São eles os responsáveis pelas fontes usadas em seu celular, pela arte da mensagem da sua camiseta ou pelo menu atrás do balcão do seu café preferido. Exatamente por estarem em todo lugar, poucos param para refletir de onde elas vêm.

Por isso, a matéria especial de três paginas que saiu em dezembro na Revista Plural, caderno de cultura de fim de semana do jornal Notícias do Dia, pode ser considerado um feito. O gancho foi o terceira edição do Café com Serifa, encontro para interessados em letras que, entre outros objetivos, tenta tornar essas ocupações mais conhecidas.

Páginas centrais do caderno

Além de entrevistar um profissional de cada especialidade, a editora do caderno, Dariene Pasternak, sugeriu ainda uma criação coletiva para a capa. Como fui o primeiro contato, recomendei várias pessoas. No final, Bruno Abatti, designer e letrista, e Jefferson Cortinove, type designer e poeta, toparam participar.

Dois estudos iniciais. Versão da direita foi a escolhida

Sempre começo um projeto por esboços a lápis. Selecionei os mais promissores e fiz dois ensaios para enviar à editora, que escolheu a composição com os tipos sobre fundo vermelho. O prazo era apertado: aprovação do layout na sexta e entrega da arte definitiva na segunda, com o porém de que eu dava curso no sábado, Bruno participava de um evento de café e Cortinove estava viajando para lançar seu livro Roubadas de um Jardim. Na prática, foi quase tudo feito em um domingo.

O título tinha de ser decidido primeiro. A razão é que minha parte e a do Abatti são feitas à mão, dificultando mudar depois. ”Gente que faz letras”, a frase que foi juntamente com a proposta, emplacou. Isso simplificou bastante as coisas porque não teríamos de refazer o layout.

Lettering feito à mão de Bruno Abatti, pronto para ser escaneado

Bruno Abatti desenhou a palavra "Gente" a lápis e me enviou o arquivo escaneado, que se encaixou perfeitamente. Só preenchemos o miolo dos caracteres com branco para aumentar o destaque.

Jefferson Cortinove, que ficou com as palavras “que faz”, indicou várias de suas fontes. Fiquei entre a Hercílio e a Kareemah e, no fim, decidimos pela segunda. Para dar dinamismo à composição, usamos as versões fina e extra bold, ambas em itálico, e misturando caixa alta e baixa. A forma do Q maiúsculo foi decisiva na escolha. Escutei do próprio Cortinove no segundo Café com Serifa que a curva do traço inferior do Q maiúsculo foi uma das primeiras formas que ele desenhou, inspirado na forma de uma concha.

Caligrafia em estilo contemporâneo, resultado da combinação de materiais

Fiquei com a palavra "letras”, que escrevi com tinta nanquim diluída em água, papel rugoso e um tira-linhas da Dreaming Dogs, combinação que espirra bastante tinta. A ideia era refazê-la para a arte-final, mas a primeira versão me agradou e mantive-a assim. Só precisei escaneá-la com a qualidade adequada (no primeiro layout, usei uma foto).

Cuidado aos detalhes na montagem da contribuição de cada artista

Montei a composição no Affinity Photo, ajustando a posição das palavras e retocando os elementos que se sobrepunham. O objetivo foi dar unidade à mistura de tipos diferentes.

Cortinove representa os type designers na terceira página da matéria

Depois, respondemos às perguntas da repórter Karin Barros, responsável pelo texto, enquanto o fotógrafo Flávio Tin tirava os retratos. O resultado não podia ser melhor: capa mais três páginas, em tinta e em pixel. 

Há cerca de um ano, tive a oportunidade de criar um painel de caligrafia diferente. Foi uma obra temporária e, exceto por uma letra "a" no centro, sem nada escrito. Livre da exigência de legibilidade, me concentrei só na composição e pintei diretamente na parede, sem esboço. Realizei essa espécie de performance caligráfica durante o encontro de desenho Drink & Draw no Sítio, um espaço cultural na Lagoa da Conceição, em Florianópolis (SC).

Detalhe da arte. Traços foram aplicados com tinta guache e pincel

O convite veio do artista gráfico Lese Pierre, um dos organizadores do evento na época – hoje, ele é o agitador do Gag & Draw Jam, no bairro Coqueiros. Dois dias antes, fui ao Sítio conversar com ele sobre a arte. A parede é toda preta e mede cerca de dois metros quadrados. Por ser uma construção antiga, tem irregularidades que aparecem mesmo debaixo da pintura.

Minha intenção era mais convencional: compor uma frase com letras em caixa-alta (maiúsculas), combinadas com linhas horizontais da mesma espessura das letras. O objetivo era formar um bloco visualmente sólido. Para que os escritos pudessem ser apagados, usei tinta guache diluída em água. Queria uma consistência mais líquida e ao mesmo tempo opaca, mas misturei água demais. A tinta escorreu e ficou transparente.

Dois testes para a caligrafia: em cima, a arte mais convencional, com texto. Embaixo, o arranjo abstrato

Avaliando com Pierre esse primeiro ensaio, decidimos partir para algo mais abstrato. Afinal, para que desperdiçar a oportunidade de ter uma parede preta com liberdade total? Comecei a escrever formas derivadas de dois tipos de letras góticas – bastarda e fraktur – tentando formar um padrão uniforme à distância. Decidimos que esse seria o estilo da arte e apagamos tudo com pano e água.

No dia do evento, preparei a tinta com a diluição certa e usei meu pincel mais largo, de 7,6 cm. A partir da letra "a" ao centro, fui adicionando traços ao redor, atento às sobreposições e à composição geral. Dá um pouco de frio na barriga não ter esboço antes. O fato da tinta ser removível não ajudou muito – se eu errasse, quebraria a impressão de espontaneidade. Mas, uma vez que você se dá conta de que não existe "erro" e assume que as coisas podem sair do planejado, fica mais calmo. Fui devagar, pensando antes de cada traço. De vez em quando, me afastava para ter uma perspectiva mais geral.

Hora de posar com a obra ao fundo. O avental limpo atesta a habilidade do artista

No fim, deu tudo certo e ficou pronto em menos de 15 minutos. Trechos do vídeo foram parar na agenda de fim de semana do telejornal local (começa nos 17 s). O painel foi lavado no dia seguinte, mas ficou a vontade de repetir a experiência. Aprendi ainda que deixar as coisas mais soltas, com menos planejamento, pode ser interessante. 

O destino de uma boa parte das minhas obras é a parede de uma casa. Para o colecionador, uma parcela do valor está na frase ou palavra que ele escolheu. Mas a caligrafia tem ainda outras características – o contraste entre texto e fundo, a composição no papel e a textura criada pelo bloco de texto. Por isso, projetos de design de interiores com uma abordagem contemporânea, onde haja espaço para a arte não figurativa, são um bom lar para estilos mais expressivos de caligrafia.

Exposição ao lado de obras-primas valoriza qualquer arte. Foto: Marcelo Letti

Percebi isso ao olhar uma obra minha na sala de um casal de amigos de Tijucas (SC), cidade a 45 min de Florianópolis. Dei o quadro de presente a eles no aniversário do ano passado (as datas são próximas o suficiente para eles fazerem uma festa só), mas só fui vê-lo pendurado agora, no aniversário deste ano.

Pos-punk inglês

A frase é a abertura da música Bizarre Love Triangle, da banda New Order. A escolha foi fácil: eles gostam de rock inglês da década de 1980: Smiths, Cure, coisas assim. Senti que poderia fazer algo nessa linha. A faixa está no disco Brotherhood, de 1986, que eu tinha em vinil. Na época, achava o encarte meio misterioso. Não trazia as letras, nem fotos do grupo. Depois, descobri que o designer gráfico de todos os discos da banda, Peter Saville, é famoso pelo trabalho mais conceitual.

Processo em duas etapas

Escrevi primeiramente as duas últimas palavras de cada frase com pincel japonês: "you" em aguada e "blue" em aquarela. Depois de secarem, escrevi o trecho completo com um tira-linhas e nanquim puro. Usei um estilo livre para combinar com o som da banda e com a proposta da decoração. O papel rugoso fez com que os traços com tira-linhas ficassem irregulares, efeito que se consegue inclinando o instrumento e escrevendo mais rápido.

"Everytime I think of you I feel shot right through with a bolt of blue." Refrão da música Bizarre Love Triangle, da banda inglesa New Order. Nanquim e aquarela sobre papel. 29,7 x 42 cm. Julho de 2015

Após alguns ensaios e tentativas, cheguei a três versões satisfatórias. Aí, foi só escolher uma. A obra mede 29,7 x 42 cm (tamanho A3) e hoje está bem acompanhada dos desenhos de duas pequenas artistas.


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