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Capa da Revista Plural feita por Bruno Abatti, Jefferson Cortinove e Ivan Jerônimo

As letras são resultado do trabalho de profissionais que dominam type design, caligrafia e lettering. São eles os responsáveis pelas fontes usadas em seu celular, pela arte da mensagem da sua camiseta ou pelo menu atrás do balcão do seu café preferido. Exatamente por estarem em todo lugar, poucos param para refletir de onde elas vêm.

Por isso, a matéria especial de três paginas que saiu em dezembro na Revista Plural, caderno de cultura de fim de semana do jornal Notícias do Dia, pode ser considerado um feito. O gancho foi o terceira edição do Café com Serifa, encontro para interessados em letras que, entre outros objetivos, tenta tornar essas ocupações mais conhecidas.

Páginas centrais do caderno

Além de entrevistar um profissional de cada especialidade, a editora do caderno, Dariene Pasternak, sugeriu ainda uma criação coletiva para a capa. Como fui o primeiro contato, recomendei várias pessoas. No final, Bruno Abatti, designer e letrista, e Jefferson Cortinove, type designer e poeta, toparam participar.

Dois estudos iniciais. Versão da direita foi a escolhida

Sempre começo um projeto por esboços a lápis. Selecionei os mais promissores e fiz dois ensaios para enviar à editora, que escolheu a composição com os tipos sobre fundo vermelho. O prazo era apertado: aprovação do layout na sexta e entrega da arte definitiva na segunda, com o porém de que eu dava curso no sábado, Bruno participava de um evento de café e Cortinove estava viajando para lançar seu livro Roubadas de um Jardim. Na prática, foi quase tudo feito em um domingo.

O título tinha de ser decidido primeiro. A razão é que minha parte e a do Abatti são feitas à mão, dificultando mudar depois. ”Gente que faz letras”, a frase que foi juntamente com a proposta, emplacou. Isso simplificou bastante as coisas porque não teríamos de refazer o layout.

Lettering feito à mão de Bruno Abatti, pronto para ser escaneado

Bruno Abatti desenhou a palavra "Gente" a lápis e me enviou o arquivo escaneado, que se encaixou perfeitamente. Só preenchemos o miolo dos caracteres com branco para aumentar o destaque.

Jefferson Cortinove, que ficou com as palavras “que faz”, indicou várias de suas fontes. Fiquei entre a Hercílio e a Kareemah e, no fim, decidimos pela segunda. Para dar dinamismo à composição, usamos as versões fina e extra bold, ambas em itálico, e misturando caixa alta e baixa. A forma do Q maiúsculo foi decisiva na escolha. Escutei do próprio Cortinove no segundo Café com Serifa que a curva do traço inferior do Q maiúsculo foi uma das primeiras formas que ele desenhou, inspirado na forma de uma concha.

Caligrafia em estilo contemporâneo, resultado da combinação de materiais

Fiquei com a palavra "letras”, que escrevi com tinta nanquim diluída em água, papel rugoso e um tira-linhas da Dreaming Dogs, combinação que espirra bastante tinta. A ideia era refazê-la para a arte-final, mas a primeira versão me agradou e mantive-a assim. Só precisei escaneá-la com a qualidade adequada (no primeiro layout, usei uma foto).

Cuidado aos detalhes na montagem da contribuição de cada artista

Montei a composição no Affinity Photo, ajustando a posição das palavras e retocando os elementos que se sobrepunham. O objetivo foi dar unidade à mistura de tipos diferentes.

Cortinove representa os type designers na terceira página da matéria

Depois, respondemos às perguntas da repórter Karin Barros, responsável pelo texto, enquanto o fotógrafo Flávio Tin tirava os retratos. O resultado não podia ser melhor: capa mais três páginas, em tinta e em pixel. 

Há cerca de um ano, tive a oportunidade de criar um painel de caligrafia diferente. Foi uma obra temporária e, exceto por uma letra "a" no centro, sem nada escrito. Livre da exigência de legibilidade, me concentrei só na composição e pintei diretamente na parede, sem esboço. Realizei essa espécie de performance caligráfica durante o encontro de desenho Drink & Draw no Sítio, um espaço cultural na Lagoa da Conceição, em Florianópolis (SC).

Detalhe da arte. Traços foram aplicados com tinta guache e pincel

O convite veio do artista gráfico Lese Pierre, um dos organizadores do evento na época – hoje, ele é o agitador do Gag & Draw Jam, no bairro Coqueiros. Dois dias antes, fui ao Sítio conversar com ele sobre a arte. A parede é toda preta e mede cerca de dois metros quadrados. Por ser uma construção antiga, tem irregularidades que aparecem mesmo debaixo da pintura.

Minha intenção era mais convencional: compor uma frase com letras em caixa-alta (maiúsculas), combinadas com linhas horizontais da mesma espessura das letras. O objetivo era formar um bloco visualmente sólido. Para que os escritos pudessem ser apagados, usei tinta guache diluída em água. Queria uma consistência mais líquida e ao mesmo tempo opaca, mas misturei água demais. A tinta escorreu e ficou transparente.

Dois testes para a caligrafia: em cima, a arte mais convencional, com texto. Embaixo, o arranjo abstrato

Avaliando com Pierre esse primeiro ensaio, decidimos partir para algo mais abstrato. Afinal, para que desperdiçar a oportunidade de ter uma parede preta com liberdade total? Comecei a escrever formas derivadas de dois tipos de letras góticas – bastarda e fraktur – tentando formar um padrão uniforme à distância. Decidimos que esse seria o estilo da arte e apagamos tudo com pano e água.

No dia do evento, preparei a tinta com a diluição certa e usei meu pincel mais largo, de 7,6 cm. A partir da letra "a" ao centro, fui adicionando traços ao redor, atento às sobreposições e à composição geral. Dá um pouco de frio na barriga não ter esboço antes. O fato da tinta ser removível não ajudou muito – se eu errasse, quebraria a impressão de espontaneidade. Mas, uma vez que você se dá conta de que não existe "erro" e assume que as coisas podem sair do planejado, fica mais calmo. Fui devagar, pensando antes de cada traço. De vez em quando, me afastava para ter uma perspectiva mais geral.

Hora de posar com a obra ao fundo. O avental limpo atesta a habilidade do artista

No fim, deu tudo certo e ficou pronto em menos de 15 minutos. Trechos do vídeo foram parar na agenda de fim de semana do telejornal local (começa nos 17 s). O painel foi lavado no dia seguinte, mas ficou a vontade de repetir a experiência. Aprendi ainda que deixar as coisas mais soltas, com menos planejamento, pode ser interessante. 

Todo projeto de lettering começa com uma conversa sobre o conceito do lugar. É importante saber a cara do estabelecimento para fazer uma arte e um visual que combinem. Tradicionalmente, uma tipografia art déco fica melhor em um café ou confeitaria. Já um lugar com hambúrguer e cerveja artesanal pede um estilo meio faroeste.

Ampliei a arte na parede usando a grade quadriculada e uma trena. Nos projetos anteriores, transferia todas as medidas a lápis para a parede, o que costumava levar mais tempo

No mês passado, recebi um convite das arquitetas do escritório Acervo Arquitetura para fazer três painéis para o Fulano Bar, que seria inaugurado em poucas semanas no bairro Estreito, em Florianópolis. Primeiro desafio: a programação de música ao vivo é eclética. Há dias para samba, sertanejo e pop, por exemplo. Por isso, a opção de usar o universo característico de um só gênero musical ficou de fora.

Invadindo o espaço dos músicos

Começamos com o que fica na cara do público: o painel atrás do palco. Para fugir de referências diretas a algum tipo de música, usamos ações que as pessoas associam com o ato de sair à noite: "dançar", "agitar", "olhar", etc.

Diferentes tipos de letras. Ideia é não ficar preso a nenhum estilo musical

A variação de tipos de letras é consequência dos estilos musicais diferentes da casa. Acho também que um dos atrativos do lettering é justamente a mistura tipográfica: cursiva, geométrica, com serifa, woodtype (termo que designa certos tipos de letras produzidos para posters no século 19), etc. As referências ao universo musical ficaram nos desenhos de instrumentos, que também preenchem os espaços entre as palavras.

Tipografia tipo woodtype foi escolha para a frase principal

Projeto finalizado em duas noites

É comum trabalhar com o estabelecimento fechado para não atrapalhar seu funcionamento. No caso do Fulano, foi mais fácil porque a casa ainda não havia sido inaugurada. Dividimos então a execução do painel em duas noites – de dia, trabalho em uma empresa. Para ir mais rápido, a crafter Carol Grilo, que sempre grava em vídeo o processo dessas obras, me ajudou a preencher as letras.

"Hoje é o dia para…". Eu e Carol Grilo depois de terminar o painel de 4 metros de largura

A inauguração oficial foi no dia 15 de julho. Mas uma semana antes, os donos abriram o bar para amigos e para quem participou do projeto. Ver o painel iluminado, com banda e casa cheia, é outra história.

A obra prontaO trabalho de lettering terminado: dez variações de preparo de café

Uma vez que você aprende a diferenciar um café do outro, descobre as sutilezas que existem por trás de uma xícara. Comigo, isso começou com a compra de cafés melhores e ficou ainda mais evidente depois que ganhei um moedor de presente.

Ano passado, fiz um painel em lettering no estilo de quadro-negro para a Pannacotta Bake Shop, uma confeitaria aqui do bairro. Na parte de cima da parede, escrevi vários tipos de preparo de café com um tipo de letra meio art nouveau.

Pensando em uma obra para inaugurar minha série de lettering Substâncias Legais, decidi completar a lista de cafés.

Por enquanto, entraram as receitas oficiais, dessas com nomes italianos. Uma hora vou fazer outra versão que tenha o passado, a média, o pingado, o turco e o florianopolitano "cabeludo" (água misturada diretamente com o pó, sem coar). Abaixo, um pouco das etapas.

Primeiro passoDesenho com tinta branca em cima do lápis
Avançando aos poucosMisturando os estilos
Quase prontoQuase no fim com "au lait". Em alguns nomes, tive de passar uma segunda demão
Últimos detalhesPor fim, um toque de marrom dentro da xícara

Agora, se me dá licença, vou moer um punhado de café.