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Não é todo sábado que sua mãe avisa que você saiu no jornal. Abri o aplicativo do Notícias do Dia e lá estava a nota que destaca meu trabalho de caligrafia. O texto vem acompanhado da reprodução de uma obra da qual gosto muito, juntamente com retrato tirado por Carol Grilo.

Bem acompanhado ao lado do ready-made Cadeau, do dadaísta Man Ray

O artigo foi publicado na coluna Mosaico, raro espaço de crítica de artes visuais na imprensa catarinense, mantido pela jornalista e produtora cultural Néri Pedroso. Ela abre o texto citando meus pais, que hoje se dedicam à gravura

Filho de peixe, peixinho é. Ivan Jerônimo, cujos pais são os artistas Julia Iguti e Antônio Silva, dedica-se à caligrafia ocidental, com abordagens tradicionais e contemporâneas. 

Mais adiante, a jornalista escreve sobre a Faferia DNA de Arte, que representa trabalhos meus, e avisa da oficina Caligrafia Livre que dou lá. 

 A nota saiu no caderno Plural na edição de fim de semana de 22 e 23 de julho.

Experiências com letra manuscrita e gravura na série Caligrafias

Palavra em Movimento, exposição de Arnaldo Antunes no Museu de Arte de Santa Catarina (Masc), foi prorrogada até 3 de setembro. É a oportunidade de ver a produção dos últimos trinta anos do músico, poeta e artista visual reunidas numa só mostra. O conjunto deixa evidente pontos em comum de sua trajetória. O principal é o código verbal como ponto de partida, conforme ele mesmo explica em entrevistas anteriores.

São as experimentações com o texto que aproximam o trabalho de Antunes da caligrafia e do design gráfico – disciplinas que também lidam com as letras como componente visual. A influência da concretismo, movimento nos quais a forma visual é parte do poema, também sempre foi visível em seus livros e letras de música.

Traços expressivos

A série Caligrafias traz monotipias feitas entre 1998 e 2003 com tinta de carimbo. A técnica da monotipia consiste em aplicar tinta a uma placa de vidro ou plástico e imprimi-la em papel, obtendo-se uma cópia única. Além de usar folhas de quase um metro de comprimento, o artista teve de fazer o texto espelhado para que saísse corretamente na impressão. “Tinha que escrever invertido para sair a leitura do lado certo. Até que descobri que escrevia invertido mais fácil com a mão esquerda, aí incorporava o tremor da mão na própria expressividade do braço”, conta ele em entrevista ao jornal Notícias do Dia

Abstração e brincadeiras com palavras são duas vertentes da série Caligrafias

Por não se prenderem a estilos históricos, as 18 gravuras podem ser classificados como caligrafia contemporânea ou experimental. Algumas são praticamente composições abstratas, em outras se identificam palavras. A escrita cursiva se mistura com letras de forma. A poesia concreta às vezes é retomada quando o artista altera as letras de acordo com o que está escrito. São trabalhos de quem já se declarou fascinado pela caligrafia e que se utiliza dessa forma de arte há algum tempo. A série Oráculo, de 1981, também incluída na mostra, já incluía a escrita manual nos recortes. 

Mistura de códigos nas colagens das série Oráculo, trabalhos mais antigos da exposição

Letras urbanas

Letras na paisagem urbana são reorganizadas na instalação O Interno Exterior

Outra área de pesquisa do autor são os escritos na paisagem urbana, refletida na instalação O Interno Exterior, de 2014, obra mais recente da exposição. Em uma sala escura, monitores de vídeo alternam fotografias de mensagens publicitárias e de sinalização de rua. As letras e palavras às vezes formam frases ou permitem novas interpretações pela contraposição. Para coletar material, Antunes provavelmente deve ter se dedicado a uma prática chamada type hunting, popular entre designers gráficos, que fotografam as mensagens textuais dispostas pelas cidades. Diferente deles, que caçam espécimes tipográficos raros ou característicos, Arnaldo Antunes confronta mensagens para montar novos significados. 

Iluminação cria sombras que parecem fazer parte da obra

A iluminação do espaço valoriza principalmente as obras tridimensionais, em que palavras são desmontadas, reorganizadas e parecem ganhar novas leituras nas sombras projetadas nas paredes e pisos. 


Serviço

Exposição Palavra em Movimento - Arnaldo Antunes
25 de maio a 3 de setembro, de terça-feira a domingo, das 10h às 20h
Museu de Arte de Santa Catarina (Masc) - Centro Integrado de Cultura (CIC)
Av. Governador Irineu Bornhausen, 5600 - Agronômica - Florianópolis, SC
Entrada gratuita
Mais informações: (48) 3664-2630

Todo praticante de caligrafia acaba desenvolvendo tipos próprios de letra. Geralmente, é uma mistura dos estilos de que ele mais gosta com um pouco do seu próprio traço. A criação muitas vezes é planejada: o artista aperfeiçoa uma letra até chegar a um resultado que possa ser repetido.

Em uma encomenda recente para uma amiga, vi que claramente não dava de usar nenhum de meus estilos usuais. A frase era “Entrego, confio, aceito e agradeço” do professor Hermógenes (1921-2015), conhecido mestre yogue com mais de vinte livros sobre a prática. Ao esboçar como ficaria a encomenda, achei que seria simples: bastaria planejar a disposição da frase e aplicar o estilo que a cliente havia escolhido, com base em outro trabalho meu.

Estudo inicial: estilo de caligrafia pareceu deslocado do sentido da frase

A mensagem, porém, tem uma certa leveza que não combina com o contraste duro do preto do nanquim com a folha. As bordas irregulares das letras, por sua vez, ficariam melhor em uma citação mais incisiva.

Tons claros

Ainda usando o pincel japonês, resolvi diluir o nanquim. A técnica cria uma transição de tons em que as áreas com tinta acumulada ficam mais escuras. O resultado ficou bom, mas suave demais. Aí, tive a ideia de usar o nanquim puro nos traços finos. Deu pra ver que daria certo logo na primeira versão.

Testei diversas diluições de nanquim até chegar a um tom de cinza nem muito escuro, nem muito claro, o que só é possível avaliar depois de seco. Primeiramente, escrevi só os traços grossos, prevendo as letras e o espaço disponível. Esperei a água evaporar e fiz os traços finos com um pincel menor (se eu aplicasse os traços pretos com a primeira camada ainda molhada, os tons iriam se mesclar).

Trabalho pronto. Ao secar, o nanquim diluído cria transições suaves de acordo com o acúmulo de tinta

Escolher a melhor versão dentre a meia dúzia de variações que acabo produzindo exige distanciamento. Por isso, deixo para decidir no dia seguinte. Selecionei a mais legível e com a composição mais equilibrada e combinei a entrega com a cliente, que aprovou. 

A oficina Caligrafia Livre encontrou seu lugar na Faferia DNA de Arte, em Florianópolis. Duas turmas já passaram uma tarde experimentando a pena, o pincel oriental e o tira-linhas. Agora vou dar mais uma edição dia 25 de março, sábado.

Preparei o conteúdo pensando na aula que eu gostaria de ter feito quando comecei. Em vez de treinar rigidamente um único estilo de letra histórica, algo que se acha facilmente em livros ou na internet, o participante pratica uma variedade de estilos e instrumentos para decidir o que produzir em casa ou escolher seus próprios materiais.

Participantes da segunda edição

A oficina é tanto para iniciantes como para quem já tem um pouco de experiência. Além de explicar como a caligrafia pode ser usada nas artes visuais e no design, mostro novas ideias – materiais inusitados, estilos diferentes e novas abordagens para instrumentos antigos, além das manhas que fui aprendendo. Um dos pontos altos da oficina é quando fazemos nossos próprios instrumentos – uma pena de bambu e um tira-linhas caseiro.

Veja mais detalhes e inscreva-se.

Oficina Caligrafia Livre · 3ª edição
25 de março de 2017, das 13h30 às 18h30
Faferia DNA de Arte - Rua Fernando Machado, 261, Centro, Florianópolis (SC)
10 vagas (mínimo de 5 inscritos)
A partir de 16 anos
Valor: R$ 190
Ministrante: Ivan Jerônimo

Capa da Revista Plural feita por Bruno Abatti, Jefferson Cortinove e Ivan Jerônimo

As letras são resultado do trabalho de profissionais que dominam type design, caligrafia e lettering. São eles os responsáveis pelas fontes usadas em seu celular, pela arte da mensagem da sua camiseta ou pelo menu atrás do balcão do seu café preferido. Exatamente por estarem em todo lugar, poucos param para refletir de onde elas vêm.

Por isso, a matéria especial de três paginas que saiu em dezembro na Revista Plural, caderno de cultura de fim de semana do jornal Notícias do Dia, pode ser considerado um feito. O gancho foi o terceira edição do Café com Serifa, encontro para interessados em letras que, entre outros objetivos, tenta tornar essas ocupações mais conhecidas.

Páginas centrais do caderno

Além de entrevistar um profissional de cada especialidade, a editora do caderno, Dariene Pasternak, sugeriu ainda uma criação coletiva para a capa. Como fui o primeiro contato, recomendei várias pessoas. No final, Bruno Abatti, designer e letrista, e Jefferson Cortinove, type designer e poeta, toparam participar.

Dois estudos iniciais. Versão da direita foi a escolhida

Sempre começo um projeto por esboços a lápis. Selecionei os mais promissores e fiz dois ensaios para enviar à editora, que escolheu a composição com os tipos sobre fundo vermelho. O prazo era apertado: aprovação do layout na sexta e entrega da arte definitiva na segunda, com o porém de que eu dava curso no sábado, Bruno participava de um evento de café e Cortinove estava viajando para lançar seu livro Roubadas de um Jardim. Na prática, foi quase tudo feito em um domingo.

O título tinha de ser decidido primeiro. A razão é que minha parte e a do Abatti são feitas à mão, dificultando mudar depois. ”Gente que faz letras”, a frase que foi juntamente com a proposta, emplacou. Isso simplificou bastante as coisas porque não teríamos de refazer o layout.

Lettering feito à mão de Bruno Abatti, pronto para ser escaneado

Bruno Abatti desenhou a palavra "Gente" a lápis e me enviou o arquivo escaneado, que se encaixou perfeitamente. Só preenchemos o miolo dos caracteres com branco para aumentar o destaque.

Jefferson Cortinove, que ficou com as palavras “que faz”, indicou várias de suas fontes. Fiquei entre a Hercílio e a Kareemah e, no fim, decidimos pela segunda. Para dar dinamismo à composição, usamos as versões fina e extra bold, ambas em itálico, e misturando caixa alta e baixa. A forma do Q maiúsculo foi decisiva na escolha. Escutei do próprio Cortinove no segundo Café com Serifa que a curva do traço inferior do Q maiúsculo foi uma das primeiras formas que ele desenhou, inspirado na forma de uma concha.

Caligrafia em estilo contemporâneo, resultado da combinação de materiais

Fiquei com a palavra "letras”, que escrevi com tinta nanquim diluída em água, papel rugoso e um tira-linhas da Dreaming Dogs, combinação que espirra bastante tinta. A ideia era refazê-la para a arte-final, mas a primeira versão me agradou e mantive-a assim. Só precisei escaneá-la com a qualidade adequada (no primeiro layout, usei uma foto).

Cuidado aos detalhes na montagem da contribuição de cada artista

Montei a composição no Affinity Photo, ajustando a posição das palavras e retocando os elementos que se sobrepunham. O objetivo foi dar unidade à mistura de tipos diferentes.

Cortinove representa os type designers na terceira página da matéria

Depois, respondemos às perguntas da repórter Karin Barros, responsável pelo texto, enquanto o fotógrafo Flávio Tin tirava os retratos. O resultado não podia ser melhor: capa mais três páginas, em tinta e em pixel. 

Fachada da Casa do Teatro do Grupo Armação, onde acontece a FAF. Sobrado é da metade do século 19 e provavelmente é um dos imóveis mais estreitos do Centro, com apenas 2,7 m de largura

Responsável por recuperar parte do movimento cultural do Centro, a Feira de Artes de Florianópolis (FAF) abre 30ª edição neste sábado, 15. São mais de vinte artistas que dividem os dois andares da Casa do Teatro do Grupo Armação com técnicas como gravura, desenho e pintura.

Uma das novidades é a participação dos bordados contemporâneos da crafter Carol Grilo. Eu estarei lá com trabalhos de caligrafia, alguns inéditos. Pretendo levar um conjunto autoral, de estilo mais livre. Todos os trabalhos vão estar à venda.

A FAF foi criada pelo jornalista e produtor cultural Fifo Lima em julho de 2015 para comercializar obras de arte originais diretamente com o público. A partir deste ano, passou a ser mensal. Para favorecer a variedade de linguagens, segundo Lima, a seleção é feita a partir dos trabalhos dos inscritos.

Fora da gaveta

A feira tem estimulado artistas iniciantes e conhecidos a botar o trabalho na rua e transformou o sobrado em lugar onde colecionadores, participantes e interessados se encontram para conversar e ver o que se produz de arte em Florianópolis – uma espécie de vernissage diurna. Um ano depois do início da FAF, Lima abriu um espaço permanente, chamado apropriadamente de Faferia DNA de Arte, também no Centro. 

Em setembro de 2015, participei da décima FAF, que tinha o tema artes gráficas. Já me parecia que o evento iria marcar a vida cultural na cidade. Reproduzo abaixo minhas impressões na época, que publiquei em outro site:


Coisas que se aprende em uma feira de artes

Estande de caligrafia na décima FAF (setembro de 2015)

29 de setembro de 2015 - Mostrar trabalhos artísticos em um evento é um bom aprendizado. Primeiramente, tem a reação das pessoas — elas param para olhar? Que tipo de obra chama mais a atenção?

Foi nesse espírito que aceitei o convite para expor meus trabalhos de caligrafia na Feira de Artes de Florianópolis, que eu já frequentava para ver a produção dos artistas da cidade. (…) As edições têm sido temáticas. A do dia 19, da qual participei, foi a décima e era dedicada às artes gráficas, tais como impressos, tipografia e gravura.

Além de ser um bom termômetro pra minha produção, fiz contato com os outros artistas que estavam expondo, vários deles que eu não teria achado nas rede sociais, tão cheias de distrações. Encontrar pessoas conhecidas, mas que não sabiam que eu estava metido com caligrafia, também rendeu assunto. 

Interessante foi ter conversado com ao menos três visitantes que contaram sobre um pai, avô ou tio alemão (ou descendente) que dominava a caligrafia no estilo gótico ou cursivo. Um deles me falou que o avô era quem sempre fazia os convites de casamento e outras cerimônias da família no Brasil.

Sabendo que a caligrafia ultimamente tem tido um certo componente performático, me ocorreu de levar alguns vídeos mostrando como fiz algumas obras. Deu certo: chamaram a atenção e foram um bom motivo para puxar conversa. Quem sabe da próxima vez não faço um trabalho na hora?


Nos encontramos no sábado!

Informações

30ª Feira de Artes de Florianópolis – FAF
15 de outubro de 2016, sábado, das 11 às 17h
Casa do Teatro Armação, Praça 15, 344, Centro, Florianópolis, SC
feiradeartedeflorianopolis@gmail.com
faferia.com 

Carol Grilo é conhecida pelos acessórios feitos a mão para sua marca, a FofysFactory. Há alguns anos, ela também desenvolve um trabalho autoral em bordado com abordagem contemporânea. É esta produção paralela que vai estar na exposição Torrado Coado Bordado que abre próximo sábado (12/8), no Coffee & Shop 18, em Florianópolis.

São peças com o tema de café, em que Carol combina imagens e frases usando a linguagem visual da ilustração e do design gráfico. Os onze trabalhos, feitos especialmente para esta exposição, foram desenvolvidos no período de um ano e refletem uma linha criativa que a autora vem perseguindo desde então.

Letras cursivas

Versões das palavras "café" e "100% arábica" escritas a pincel

Na época em que preparava as obras, a artista teve a ideia de bordar palavras a partir de caligrafias. Com um calígrafo em casa, foi fácil. Ela me pediu dois escritos, ambos em estilo cursivo: "café" e "100% arábica" (espécie de café mais cara e com sabor menos amargo). Peguei o pincel, fiz vários ensaios com nanquim e ela escolheu quais seriam traduzidos em linha e tecido. A área ao redor das letras ganhou tons de marrom. O interior ficou sem preenchimento, aproveitando o espaço negativo.

Café: bordado originado de uma caligrafia. Marrom, como sugere o tema

Mudança de atitude

Carol Grilo faz parte de uma nova geração de artistas que transforma artes tradicionalmente femininas e com linguagens visuais arraigadas. "Hoje artistas plásticos e crafters transmitem mensagens de nosso tempo através do bordado, que geralmente estávamos acostumados a ver em desenhos ingênuos", afirma.

Os trabalhos em exposição estão à venda.


Exposição Torrado, Coado, Bordado
Abertura: 12 de agosto, sexta-feira, às 19h
Visitação: de 12 de agosto a 2 de setembro, de segunda à sexta, das 8h30 às 19h
Onde: Coffee & Shop 18: rua Professor Acelon Pacheco da Costa, 64, loja 3 · Itacorubi, Florianópolis

Há cerca de um ano, tive a oportunidade de criar um painel de caligrafia diferente. Foi uma obra temporária e, exceto por uma letra "a" no centro, sem nada escrito. Livre da exigência de legibilidade, me concentrei só na composição e pintei diretamente na parede, sem esboço. Realizei essa espécie de performance caligráfica durante o encontro de desenho Drink & Draw no Sítio, um espaço cultural na Lagoa da Conceição, em Florianópolis (SC).

Detalhe da arte. Traços foram aplicados com tinta guache e pincel

O convite veio do artista gráfico Lese Pierre, um dos organizadores do evento na época – hoje, ele é o agitador do Gag & Draw Jam, no bairro Coqueiros. Dois dias antes, fui ao Sítio conversar com ele sobre a arte. A parede é toda preta e mede cerca de dois metros quadrados. Por ser uma construção antiga, tem irregularidades que aparecem mesmo debaixo da pintura.

Minha intenção era mais convencional: compor uma frase com letras em caixa-alta (maiúsculas), combinadas com linhas horizontais da mesma espessura das letras. O objetivo era formar um bloco visualmente sólido. Para que os escritos pudessem ser apagados, usei tinta guache diluída em água. Queria uma consistência mais líquida e ao mesmo tempo opaca, mas misturei água demais. A tinta escorreu e ficou transparente.

Dois testes para a caligrafia: em cima, a arte mais convencional, com texto. Embaixo, o arranjo abstrato

Avaliando com Pierre esse primeiro ensaio, decidimos partir para algo mais abstrato. Afinal, para que desperdiçar a oportunidade de ter uma parede preta com liberdade total? Comecei a escrever formas derivadas de dois tipos de letras góticas – bastarda e fraktur – tentando formar um padrão uniforme à distância. Decidimos que esse seria o estilo da arte e apagamos tudo com pano e água.

No dia do evento, preparei a tinta com a diluição certa e usei meu pincel mais largo, de 7,6 cm. A partir da letra "a" ao centro, fui adicionando traços ao redor, atento às sobreposições e à composição geral. Dá um pouco de frio na barriga não ter esboço antes. O fato da tinta ser removível não ajudou muito – se eu errasse, quebraria a impressão de espontaneidade. Mas, uma vez que você se dá conta de que não existe "erro" e assume que as coisas podem sair do planejado, fica mais calmo. Fui devagar, pensando antes de cada traço. De vez em quando, me afastava para ter uma perspectiva mais geral.

Hora de posar com a obra ao fundo. O avental limpo atesta a habilidade do artista

No fim, deu tudo certo e ficou pronto em menos de 15 minutos. Trechos do vídeo foram parar na agenda de fim de semana do telejornal local (começa nos 17 s). O painel foi lavado no dia seguinte, mas ficou a vontade de repetir a experiência. Aprendi ainda que deixar as coisas mais soltas, com menos planejamento, pode ser interessante. 

O destino de uma boa parte das minhas obras é a parede de uma casa. Para o colecionador, uma parcela do valor está na frase ou palavra que ele escolheu. Mas a caligrafia tem ainda outras características – o contraste entre texto e fundo, a composição no papel e a textura criada pelo bloco de texto. Por isso, projetos de design de interiores com uma abordagem contemporânea, onde haja espaço para a arte não figurativa, são um bom lar para estilos mais expressivos de caligrafia.

Exposição ao lado de obras-primas valoriza qualquer arte. Foto: Marcelo Letti

Percebi isso ao olhar uma obra minha na sala de um casal de amigos de Tijucas (SC), cidade a 45 min de Florianópolis. Dei o quadro de presente a eles no aniversário do ano passado (as datas são próximas o suficiente para eles fazerem uma festa só), mas só fui vê-lo pendurado agora, no aniversário deste ano.

Pos-punk inglês

A frase é a abertura da música Bizarre Love Triangle, da banda New Order. A escolha foi fácil: eles gostam de rock inglês da década de 1980: Smiths, Cure, coisas assim. Senti que poderia fazer algo nessa linha. A faixa está no disco Brotherhood, de 1986, que eu tinha em vinil. Na época, achava o encarte meio misterioso. Não trazia as letras, nem fotos do grupo. Depois, descobri que o designer gráfico de todos os discos da banda, Peter Saville, é famoso pelo trabalho mais conceitual.

Processo em duas etapas

Escrevi primeiramente as duas últimas palavras de cada frase com pincel japonês: "you" em aguada e "blue" em aquarela. Depois de secarem, escrevi o trecho completo com um tira-linhas e nanquim puro. Usei um estilo livre para combinar com o som da banda e com a proposta da decoração. O papel rugoso fez com que os traços com tira-linhas ficassem irregulares, efeito que se consegue inclinando o instrumento e escrevendo mais rápido.

"Everytime I think of you I feel shot right through with a bolt of blue." Refrão da música Bizarre Love Triangle, da banda inglesa New Order. Nanquim e aquarela sobre papel. 29,7 x 42 cm. Julho de 2015

Após alguns ensaios e tentativas, cheguei a três versões satisfatórias. Aí, foi só escolher uma. A obra mede 29,7 x 42 cm (tamanho A3) e hoje está bem acompanhada dos desenhos de duas pequenas artistas.


Se animou em ter um trabalho de caligrafia na parede de casa? Dê uma olhada na loja online: lá tem vários estilos e dimensões.