Ivan Jerônimo

Caligrafia, lettering e artes visuais
Fachada da Casa do Teatro do Grupo Armação, onde acontece a FAF. Sobrado é da metade do século 19 e provavelmente é um dos imóveis mais estreitos do Centro, com apenas 2,7 m de largura

Responsável por recuperar parte do movimento cultural do Centro, a Feira de Artes de Florianópolis (FAF) abre 30ª edição neste sábado, 15. São mais de vinte artistas que dividem os dois andares da Casa do Teatro do Grupo Armação com técnicas como gravura, desenho e pintura.

Uma das novidades é a participação dos bordados contemporâneos da crafter Carol Grilo. Eu estarei lá com trabalhos de caligrafia, alguns inéditos. Pretendo levar um conjunto autoral, de estilo mais livre. Todos os trabalhos vão estar à venda.

A FAF foi criada pelo jornalista e produtor cultural Fifo Lima em julho de 2015 para comercializar obras de arte originais diretamente com o público. A partir deste ano, passou a ser mensal. Para favorecer a variedade de linguagens, segundo Lima, a seleção é feita a partir dos trabalhos dos inscritos.

Fora da gaveta

A feira tem estimulado artistas iniciantes e conhecidos a botar o trabalho na rua e transformou o sobrado em lugar onde colecionadores, participantes e interessados se encontram para conversar e ver o que se produz de arte em Florianópolis – uma espécie de vernissage diurna. Um ano depois do início da FAF, Lima abriu um espaço permanente, chamado apropriadamente de Faferia DNA de Arte, também no Centro. 

Em setembro de 2015, participei da décima FAF, que tinha o tema artes gráficas. Já me parecia que o evento iria marcar a vida cultural na cidade. Reproduzo abaixo minhas impressões na época, que publiquei em outro site:


Coisas que se aprende em uma feira de artes

Estande de caligrafia na décima FAF (setembro de 2015)

29 de setembro de 2015 - Mostrar trabalhos artísticos em um evento é um bom aprendizado. Primeiramente, tem a reação das pessoas — elas param para olhar? Que tipo de obra chama mais a atenção?

Foi nesse espírito que aceitei o convite para expor meus trabalhos de caligrafia na Feira de Artes de Florianópolis, que eu já frequentava para ver a produção dos artistas da cidade. (…) As edições têm sido temáticas. A do dia 19, da qual participei, foi a décima e era dedicada às artes gráficas, tais como impressos, tipografia e gravura.

Além de ser um bom termômetro pra minha produção, fiz contato com os outros artistas que estavam expondo, vários deles que eu não teria achado nas rede sociais, tão cheias de distrações. Encontrar pessoas conhecidas, mas que não sabiam que eu estava metido com caligrafia, também rendeu assunto. 

Interessante foi ter conversado com ao menos três visitantes que contaram sobre um pai, avô ou tio alemão (ou descendente) que dominava a caligrafia no estilo gótico ou cursivo. Um deles me falou que o avô era quem sempre fazia os convites de casamento e outras cerimônias da família no Brasil.

Sabendo que a caligrafia ultimamente tem tido um certo componente performático, me ocorreu de levar alguns vídeos mostrando como fiz algumas obras. Deu certo: chamaram a atenção e foram um bom motivo para puxar conversa. Quem sabe da próxima vez não faço um trabalho na hora?


Nos encontramos no sábado!

Informações

30ª Feira de Artes de Florianópolis – FAF
15 de outubro de 2016, sábado, das 11 às 17h
Casa do Teatro Armação, Praça 15, 344, Centro, Florianópolis, SC
[email protected]
faferia.com 

Julia Iguti e Antônio C. Silva abrem a exposição Ironias nesta sexta, 23, às 19h30, no espaço Nacasa, em Florianópolis. Em exibição, mais de 50 xilogravuras que representam duas linhas de trabalho distintas. A mostra segue até 19 de outubro.

Segundo a artista Patrícia Amante, que assina a apresentação, "Julia vê pessoas, paisagens, imagens do cotidiano e jornalísticas, criando possibilidades para a elaboração do desenho, conduzindo a algo que não havia pensado", escreve. "Antônio C Silva", continua, "desenvolve uma temática sobre o ridículo do homem. Animais com caras de homens ou vice-versa, irracionais e bizarros".

A exposição traz obras desenvolvidas na Oficina de Gravura do Centro Integrado de Cultura (CIC) sob orientação do gravurista Bebeto – Iguti começou a partir da década de 1980, Silva desde 2008. Ambos são arquitetos formados na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e moram em Florianópolis há 40 anos (e são meus pais).

Além da gravura, a carreira artística dos dois inclui pintura, desenho e escultura, com exposições na Fundação Badesc, Galeria Municipal Pedro Paulo Vecchietti, Museu Victor Meirelles, entre outros. Iguti expôs ainda no Japão e na França.

 

Ironias - Exposição de xilogravuras
Julia Iguti e Antônio C. Silva
Abertura: 23 de setembro de 2016
Visitação: Até 19 de outubro, de segunda a sexta, das 14h às 18h · Entrada gratuita
Na Casa Coletivo Artístico
Rua José Francisco Dias Areias, 359, Trindade - Florianópolis, SC
Informações:
[email protected]

Mesmo com o ambiente espaçoso, era preciso ir alternando entre as paredes ou esperar alguém sair da frente para conseguir ver todas as 500 obras na abertura da Feira de Artes Visuais (Mosq), no Bistro D'Acampora, em Florianópolis. A quantidade de gente que foi à noite de inauguração no último dia 2 mostrou que há público para eventos de arte na cidade.

Pelas contas da organização, eram 130 artistas com pinturas, desenhos, fotografias, gravuras e outras técnicas. A maioria de Santa Catarina, mas havia nomes de outros estados. O espaço tinha ainda duas mesas para as esculturas e dois suportes para arte em papel sem moldura. A única obra em caligrafia era minha, representada pela Faferia DNA de Arte. Meus pais Julia Iguti e Antônio C. Silva também estavam lá com nove trabalhos em xilogravura. A Mosq foi até o último domingo, 11/9.

Ao lado do acervo da Faferia DNA de Arte na Mosq. Caligrafia minha (esq.) era única obra do gênero na feira
Gravurista Julia Iguti folheia obras em papel em um dos suportes
Antônio C. Silva ao lado de sua xilogravura
Artistas Carol Grilo, eu e Osmar Yang
Julius Schadeck e sua pintura, também no espaço da Faferia
Osmar Yang e Julius Schadeck mostram suas habilidades marciais
Painel com artistas representados pela Faferia. Terceira obra da linha superior é caligrafia assinada por mim. Foto: Fifo Lima/Faferia

A Mosq (Feira de Artes Visuais) inicia sua segunda edição neste sábado, 3/9, no bistrô D'Acampora, em Florianópolis. Com obras de mais de 140 artistas, quase o dobro do ano passado, a feira tem o objetivo de "democratizar a arte, tornando-a acessível à contemplação e comercialização", segundo as organizadoras. A seleção inclui nomes consagrados e novos talentos, com técnicas que vão da pintura à escultura.

Meu trabalho em caligrafia que está lá foi levado pela Faferia - DNA de Arte, espaço cultural com galeria, cursos e molduraria, e uma das apoiadoras institucionais. A composição foi escrita a partir de letra da banda New Order e está ao lado de trabalhos de outros 17 artistas representados pela Faferia, muitos dos quais amigos e conhecidos.

Detalhe de caligrafia em nanquim e aquarela que está exposta na Mosq

Nove xilogravuras recentes dos meus pais, o casal de artistas Julia Iguti e Antônio Silva, também estão na mostra. Os dois fazem parte de um círculo que se formou ao redor da oficina de gravura do Centro Integrado de Cultura – CIC, sob orientação do professor Bebeto.

A Mosq segue até 11 de setembro, com visitação das 14 às 21h. A abertura é nesta sexta, 2/9, para artistas e convidados.


Mosq - Feira de Artes Visuais
3 a 11 de setembro de 2016, 14 às 21h
Entrada gratuita
Bistrô D'Acampora - SC 401 - Km 10 - Florianópolis - SC
[email protected]

Designers Juliana Shiraiwa e Miguel Etges analisam trabalho tipográfico

O segundo Café com Serifa tinha tudo para ficar vazio. Um encontro sobre tipografia, caligrafia e lettering em uma tarde fria e chuvosa de sábado, 20 de agosto, junto com a final de futebol masculino das Olimpíadas, não podia dar certo. Porém, aproximadamente 25 profissionais e interessados em letras provaram o contrário e assim ocupamos novamente o Coffee & Shop 18. E com uma programação maior que a da edição anterior, de iniciativa dos próprios participantes.

Enquanto o primeiro encontro teve demonstrações de materiais de caligrafia, este segundo foi dedicado à tipografia. Mary Meürer, professora do curso de Design da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e coordenadora do blog Tipos&Textos, organizou mostra com 12 cartazes da conferência de 2015 da Association Typographique Internationale – ATypI, que ocorreu em São Paulo. Designers e oficinas tipográficas foram chamados para criarem os pôsteres, que depois compuseram a exposição Letterpress Reloaded! e foram distribuídos aos inscritos. 

Exposição de cartazes impressos em tipografia para conferência da ATypI. Em primeiro plano, o exemplar criado pelo curso de Design da UFSC

Um dos cartazes veio de Florianópolis. Orientados por Meürer, alunos do curso de Design da UFSC criaram uma peça usando tipos de MDF cortados a laser, também expostos no café. A Imprensa Universitária, que ainda mantém uma tipografia, cuidou da impressão. Os pôsteres foram emprestados pela própria Mary Meürer e pelos designers Maíra Woloszyn e Renato Cardoso

Lançamento de fonte 

Para compensar a concorrência com o jogo da seleção, a data proporcionou uma coincidência a nosso favor. Uma semana antes, o type designer Jefferson Cortinove havia lançado a Kareemah, uma família tipográfica sem serifa, com 16 variações, ligaduras e todo o conjunto de caracteres das línguas ocidentais. Convidei-o a apresentar o projeto no Café com Serifa. 

Type designer Jefferson Cortinove detalha projeto de sua fonte Kareemah

Cortinove começou pedindo uma concha (o utensílio de cozinha, não a casa do molusco) ao pessoal do café e explicou que o objeto serviu de inspiração para as formas das letras. Depois, detalhou a criação dos diferentes pesos e variações, mostrou exemplos de caracteres especiais e as ligaduras. Ao todo, desenhou 800 caracteres para as variações. 

Brindes aparecem espontaneamente

Na hora do sorteio, o único item programado era o livro Esse é meu tipo, do jornalista Simon Garfield, um apanhado de ensaios e casos curiosos sobre tipografia que comprei na véspera. Mas, assim como no primeiro encontro, vieram contribuições. O Coffee & Shop 18 deu um pacote de café Grãos do Brasil, variedade bourbon amarelo, Cortinove providenciou um download da família completa da Kareemah e Mary Meürer doou um exemplar do cartaz da UFSC. 

Conversas e novos projetos

Outras áreas do design também são assunto de conversa. Na mesa ao fundo, tipos usados na produção do cartaz da UFSC

O objetivo do Café com Serifa é ser um encontro para a comunidade que trabalha ou se interessa por letras. A programação é sempre aberta – a ideia é que cada edição seja construída pelos próprios participantes. Ter eventos interessantes e ver as mesas cheias de pessoas conversando, algumas que até então não se conheciam, prova que estamos acertando.

O próximo encontro será à noite, em um dia de semana. O plano é continuar intercalando entre tardes e noites a fim de dar chance a todos. Para ficar sabendo das próximas edições, entre no grupo do Facebook e inscreva-se para receber o boletim. Nos vemos daqui a dois (ou três) meses!

Carol Grilo é conhecida pelos acessórios feitos a mão para sua marca, a FofysFactory. Há alguns anos, ela também desenvolve um trabalho autoral em bordado com abordagem contemporânea. É esta produção paralela que vai estar na exposição Torrado Coado Bordado que abre próximo sábado (12/8), no Coffee & Shop 18, em Florianópolis.

São peças com o tema de café, em que Carol combina imagens e frases usando a linguagem visual da ilustração e do design gráfico. Os onze trabalhos, feitos especialmente para esta exposição, foram desenvolvidos no período de um ano e refletem uma linha criativa que a autora vem perseguindo desde então.

Letras cursivas

Versões das palavras "café" e "100% arábica" escritas a pincel

Na época em que preparava as obras, a artista teve a ideia de bordar palavras a partir de caligrafias. Com um calígrafo em casa, foi fácil. Ela me pediu dois escritos, ambos em estilo cursivo: "café" e "100% arábica" (espécie de café mais cara e com sabor menos amargo). Peguei o pincel, fiz vários ensaios com nanquim e ela escolheu quais seriam traduzidos em linha e tecido. A área ao redor das letras ganhou tons de marrom. O interior ficou sem preenchimento, aproveitando o espaço negativo.

Café: bordado originado de uma caligrafia. Marrom, como sugere o tema

Mudança de atitude

Carol Grilo faz parte de uma nova geração de artistas que transforma artes tradicionalmente femininas e com linguagens visuais arraigadas. "Hoje artistas plásticos e crafters transmitem mensagens de nosso tempo através do bordado, que geralmente estávamos acostumados a ver em desenhos ingênuos", afirma.

Os trabalhos em exposição estão à venda.


Exposição Torrado, Coado, Bordado
Abertura: 12 de agosto, sexta-feira, às 19h
Visitação: de 12 de agosto a 2 de setembro, de segunda à sexta, das 8h30 às 19h
Onde: Coffee & Shop 18: rua Professor Acelon Pacheco da Costa, 64, loja 3 · Itacorubi, Florianópolis

Há cerca de um ano, tive a oportunidade de criar um painel de caligrafia diferente. Foi uma obra temporária e, exceto por uma letra "a" no centro, sem nada escrito. Livre da exigência de legibilidade, me concentrei só na composição e pintei diretamente na parede, sem esboço. Realizei essa espécie de performance caligráfica durante o encontro de desenho Drink & Draw no Sítio, um espaço cultural na Lagoa da Conceição, em Florianópolis (SC).

Detalhe da arte. Traços foram aplicados com tinta guache e pincel

O convite veio do artista gráfico Lese Pierre, um dos organizadores do evento na época – hoje, ele é o agitador do Gag & Draw Jam, no bairro Coqueiros. Dois dias antes, fui ao Sítio conversar com ele sobre a arte. A parede é toda preta e mede cerca de dois metros quadrados. Por ser uma construção antiga, tem irregularidades que aparecem mesmo debaixo da pintura.

Minha intenção era mais convencional: compor uma frase com letras em caixa-alta (maiúsculas), combinadas com linhas horizontais da mesma espessura das letras. O objetivo era formar um bloco visualmente sólido. Para que os escritos pudessem ser apagados, usei tinta guache diluída em água. Queria uma consistência mais líquida e ao mesmo tempo opaca, mas misturei água demais. A tinta escorreu e ficou transparente.

Dois testes para a caligrafia: em cima, a arte mais convencional, com texto. Embaixo, o arranjo abstrato

Avaliando com Pierre esse primeiro ensaio, decidimos partir para algo mais abstrato. Afinal, para que desperdiçar a oportunidade de ter uma parede preta com liberdade total? Comecei a escrever formas derivadas de dois tipos de letras góticas – bastarda e fraktur – tentando formar um padrão uniforme à distância. Decidimos que esse seria o estilo da arte e apagamos tudo com pano e água.

No dia do evento, preparei a tinta com a diluição certa e usei meu pincel mais largo, de 7,6 cm. A partir da letra "a" ao centro, fui adicionando traços ao redor, atento às sobreposições e à composição geral. Dá um pouco de frio na barriga não ter esboço antes. O fato da tinta ser removível não ajudou muito – se eu errasse, quebraria a impressão de espontaneidade. Mas, uma vez que você se dá conta de que não existe "erro" e assume que as coisas podem sair do planejado, fica mais calmo. Fui devagar, pensando antes de cada traço. De vez em quando, me afastava para ter uma perspectiva mais geral.

Hora de posar com a obra ao fundo. O avental limpo atesta a habilidade do artista

No fim, deu tudo certo e ficou pronto em menos de 15 minutos. Trechos do vídeo foram parar na agenda de fim de semana do telejornal local (começa nos 17 s). O painel foi lavado no dia seguinte, mas ficou a vontade de repetir a experiência. Aprendi ainda que deixar as coisas mais soltas, com menos planejamento, pode ser interessante. 

O destino de uma boa parte das minhas obras é a parede de uma casa. Para o colecionador, uma parcela do valor está na frase ou palavra que ele escolheu. Mas a caligrafia tem ainda outras características – o contraste entre texto e fundo, a composição no papel e a textura criada pelo bloco de texto. Por isso, projetos de design de interiores com uma abordagem contemporânea, onde haja espaço para a arte não figurativa, são um bom lar para estilos mais expressivos de caligrafia.

Exposição ao lado de obras-primas valoriza qualquer arte. Foto: Marcelo Letti

Percebi isso ao olhar uma obra minha na sala de um casal de amigos de Tijucas (SC), cidade a 45 min de Florianópolis. Dei o quadro de presente a eles no aniversário do ano passado (as datas são próximas o suficiente para eles fazerem uma festa só), mas só fui vê-lo pendurado agora, no aniversário deste ano.

Pos-punk inglês

A frase é a abertura da música Bizarre Love Triangle, da banda New Order. A escolha foi fácil: eles gostam de rock inglês da década de 1980: Smiths, Cure, coisas assim. Senti que poderia fazer algo nessa linha. A faixa está no disco Brotherhood, de 1986, que eu tinha em vinil. Na época, achava o encarte meio misterioso. Não trazia as letras, nem fotos do grupo. Depois, descobri que o designer gráfico de todos os discos da banda, Peter Saville, é famoso pelo trabalho mais conceitual.

Processo em duas etapas

Escrevi primeiramente as duas últimas palavras de cada frase com pincel japonês: "you" em aguada e "blue" em aquarela. Depois de secarem, escrevi o trecho completo com um tira-linhas e nanquim puro. Usei um estilo livre para combinar com o som da banda e com a proposta da decoração. O papel rugoso fez com que os traços com tira-linhas ficassem irregulares, efeito que se consegue inclinando o instrumento e escrevendo mais rápido.

"Everytime I think of you I feel shot right through with a bolt of blue." Refrão da música Bizarre Love Triangle, da banda inglesa New Order. Nanquim e aquarela sobre papel. 29,7 x 42 cm. Julho de 2015

Após alguns ensaios e tentativas, cheguei a três versões satisfatórias. Aí, foi só escolher uma. A obra mede 29,7 x 42 cm (tamanho A3) e hoje está bem acompanhada dos desenhos de duas pequenas artistas.


Se animou em ter um trabalho de caligrafia na parede de casa? Dê uma olhada na loja online: lá tem vários estilos e dimensões.

Todo projeto de lettering começa com uma conversa sobre o conceito do lugar. É importante saber a cara do estabelecimento para fazer uma arte e um visual que combinem. Tradicionalmente, uma tipografia art déco fica melhor em um café ou confeitaria. Já um lugar com hambúrguer e cerveja artesanal pede um estilo meio faroeste.

Ampliei a arte na parede usando a grade quadriculada e uma trena. Nos projetos anteriores, transferia todas as medidas a lápis para a parede, o que costumava levar mais tempo

No mês passado, recebi um convite das arquitetas do escritório Acervo Arquitetura para fazer três painéis para o Fulano Bar, que seria inaugurado em poucas semanas no bairro Estreito, em Florianópolis. Primeiro desafio: a programação de música ao vivo é eclética. Há dias para samba, sertanejo e pop, por exemplo. Por isso, a opção de usar o universo característico de um só gênero musical ficou de fora.

Invadindo o espaço dos músicos

Começamos com o que fica na cara do público: o painel atrás do palco. Para fugir de referências diretas a algum tipo de música, usamos ações que as pessoas associam com o ato de sair à noite: "dançar", "agitar", "olhar", etc.

Diferentes tipos de letras. Ideia é não ficar preso a nenhum estilo musical

A variação de tipos de letras é consequência dos estilos musicais diferentes da casa. Acho também que um dos atrativos do lettering é justamente a mistura tipográfica: cursiva, geométrica, com serifa, woodtype (termo que designa certos tipos de letras produzidos para posters no século 19), etc. As referências ao universo musical ficaram nos desenhos de instrumentos, que também preenchem os espaços entre as palavras.

Tipografia tipo woodtype foi escolha para a frase principal

Projeto finalizado em duas noites

É comum trabalhar com o estabelecimento fechado para não atrapalhar seu funcionamento. No caso do Fulano, foi mais fácil porque a casa ainda não havia sido inaugurada. Dividimos então a execução do painel em duas noites – de dia, trabalho em uma empresa. Para ir mais rápido, a crafter Carol Grilo, que sempre grava em vídeo o processo dessas obras, me ajudou a preencher as letras.

"Hoje é o dia para…". Eu e Carol Grilo depois de terminar o painel de 4 metros de largura

A inauguração oficial foi no dia 15 de julho. Mas uma semana antes, os donos abriram o bar para amigos e para quem participou do projeto. Ver o painel iluminado, com banda e casa cheia, é outra história.

Viaje en tiralíneas, de Silvia Cordero VegaNeste livreto de apenas 36 páginas, autora explora uso do instrumento conhecido em português como tira-linhas. Na foto, três modelos diferentes

Eu acredito que as leituras aparecem na hora certa. O livro Viaje en Tiralíneas (Viagem em Tira-linhas), da argentina Silvia Cordero Vega, foi uma delas. Como muitos participantes das minhas oficinas de caligrafia, eu guardava vários materiais comprados em viagens, alguns ainda fechados na embalagem. A razão é que eu não sabia como começar.

Achado

Esbarrei no livro em 2013 em uma papelaria de Buenos Aires chamada Papelera Palermo, hoje já fechada. Passeando entre papéis especiais e produtos assinados por designers, dois pequenos livros de caligrafia, da mesma autora, me chamaram a atenção. O primeiro era um apanhado do trabalho de vários artistas e o outro, um manual. Este foi o que levei porque me pareceu mais útil.

Páginas do livro viaje en tiralíneas, de Silvia Cordero VegaTipos de tira-linhas e exemplos de trabalhos

Minha vontade de estudar caligrafia ocidental na época esbarrava na falta de informações. Tinha medo de "começar errado", sem método. Mesmo as ocasionais palavras escritas à mão para alguns trabalhos de design gráfico não foram o suficiente para iniciar um hábito: eu adiava o início para quando tivesse tempo sobrando, os materiais certos e um espaço físico adequado. Hoje sei que essas condições raramente se alinham. O negócio é produzir com o que se tem em mãos.

Conteúdo

O livro é dedicado a um único instrumento chamado tira-linhas. Silvia Cordero mostra os vários tipos, ensina como improvisar uma versão caseira usando lata de alumínio – afinal, é um item difícil de achar – e traz exercícios e exemplos. Essa abordagem livre e sem preocupação com os estilos históricos foi o início das minhas primeiras experiências. Depois acabei encontrando outros manuais, mas devo à autora desse pequeno livreto de 36 páginas uma abordagem que sigo ainda hoje. É um bom ponto de partida.

A obra prontaO trabalho de lettering terminado: dez variações de preparo de café

Uma vez que você aprende a diferenciar um café do outro, descobre as sutilezas que existem por trás de uma xícara. Comigo, isso começou com a compra de cafés melhores e ficou ainda mais evidente depois que ganhei um moedor de presente.

Ano passado, fiz um painel em lettering no estilo de quadro-negro para a Pannacotta Bake Shop, uma confeitaria aqui do bairro. Na parte de cima da parede, escrevi vários tipos de preparo de café com um tipo de letra meio art nouveau.

Pensando em uma obra para inaugurar minha série de lettering Substâncias Legais, decidi completar a lista de cafés.

Por enquanto, entraram as receitas oficiais, dessas com nomes italianos. Uma hora vou fazer outra versão que tenha o passado, a média, o pingado, o turco e o florianopolitano "cabeludo" (água misturada diretamente com o pó, sem coar). Abaixo, um pouco das etapas.

Primeiro passoDesenho com tinta branca em cima do lápis
Avançando aos poucosMisturando os estilos
Quase prontoQuase no fim com "au lait". Em alguns nomes, tive de passar uma segunda demão
Últimos detalhesPor fim, um toque de marrom dentro da xícara

Agora, se me dá licença, vou moer um punhado de café.

Obras na telaTrabalhos no grupo Expressive Calligraphy do Flickr

Não faz muito tempo, os profissionais encarregados de selecionar artistas tinham mais poder. Em um mundo sem internet, eram editores, curadores e diretores de arte que decidiam quem seria publicado ou faria exposições.

Hoje, qualquer um descobre sozinho do que gosta, às vezes até mais rápido que os formadores de opinião. Um dos métodos é procurar a rede social certa. Navegar pelas tags, entrar em grupos e vasculhar quem segue quem são técnicas que funcionam.

E para quem faz arte, funciona dos dois lados:

  • Você informa seus seguidores sobre o que anda fazendo
  • Abre um canal de comunicação mais informal com o público
  • Mantém o contato com colegas e gente do ramo (incluindo editores, curadores e diretores de arte)

Estamos o tempo inteiro com o nariz grudado no celular, então não custa nada adicionar bons calígrafos e letristas para se inspirar. Abaixo, os cinco serviços que uso hoje (deixei de fora sites específicos de portfolio, tais como Dribble e Behance):

Instagram

É a principal rede de fotos atualmente. Todo mundo está lá, das estrelas mundiais da caligrafia aos iniciantes mais tímidos. A busca é baseada em tags e se você seguir muitos contatos, provavelmente vai acabar perdendo atualizações. A atividade social se resume a curtir, comentar e, mais recentemente, a trocar mensagens. Postei minha milésima foto há poucos meses.

Meu perfil no Instagram: ivanjeronimo

Flickr

Rede de compartilhamento de fotos e vídeos que oferece pelo menos quatro coisas que o Instagram não tem:

  • Fotos grandes
  • Grupos
  • Álbuns para organizar as fotos
  • Controles de quem vê suas publicações

Inicialmente focada em desktop, sofreu uma queda na quantidade de usuários quando eles foram para os celulares. Reagiu com uma bela reforma no aplicativo móvel e hoje é uma rede habitada por fotógrafos e pessoas com interesses específicos. Isso inclui os calígrafos, que contam com pelo menos uma dúzia de grupos e vários artistas que postam regularmente.

Há uns meses saiu a notícia de que o Yahoo venderia o Flickr para se concentrar em assets mais promissores, mas ficou nisso. Este ano minha conta completa dez anos. Tenho quase a mesma quantidade de fotos que tenho no Instagram.

Meu perfil no Flickr: ivanjeronimo

Facebook

Tem grupos e a possibilidade de montar uma fanpage (página de empresa). Muitos calígrafos e letristas estão lá, alguns com perfis pessoais, outros com fanpage. Faço parte de dois grupos de caligrafia: Coffee Calligraphic e Caligrafia.

Sendo a maior rede do mundo, sofre com a superpopulação: é tudo muito caótico e o sistema exibe muita besteira. Os controles de privacidade são confusos e sua imagem pode ser baixada por qualquer um que consiga vê-la. Para quem tem página de empresa, os posts que não são pagos têm alcance limitado. Infelizmente, é onde a maioria dos usuários de internet passa o tempo, por isso é interessante manter uma conta ativa.

Minha página no Facebook: oivanjeronimo

YouTube

Ótimo para aprender qualquer coisa, inclusive caligrafia e lettering. Vários artistas postam vídeos do processo de criação das suas obras. Como portfolio, você terá mais visitas se seu produto tiver um viés educativo (curso ou palestra) ou performático. 

É uma opção prática e gratuita para deixar os vídeos publicados e compartilhá-los em outros lugares. Tenho a conta há uns dois anos e já publiquei uns dez vídeos. Seu principal concorrente é o Vimeo.

Meu canal do YouTube: ivanjeronimo

Pinterest

Funciona como um álbum de recortes. Cada imagem ou página que você salva vira um cartão chamado pin, que por sua vez pode ser agrupado em boards. Você pode seguir outros usuários ou somente os boards. Em poucos anos usando o serviço, acumulei cerca de 800 pins agrupados em 44 boards com temas como caligrafia, design gráfico e música.  

Para calígrafos e outros artistas, o Pinterest tem a dupla função de guardar referências e revelar gente talentosa. Por outro lado, é um dos responsáveis pela uniformização visual do planeta inteiro. 

Meu perfil no Pinterest: oivanjeronimo

Do lado de fora, fazia uns 10 graus. Mesmo assim, mais de 50 pessoas passaram pela porta do Coffee & Shop 18 na noite marcada para o primeiro Café com Serifa, encontro de type designers, calígrafos, letristas e afins. Em uma certa altura, era preciso abrir caminho entre os participantes para circular pelo café.

Casa cheiaParticipantes do Café com Serifa no Coffee & Shop 18

No dia do evento, 9 de junho, havia no Facebook 86 usuários confirmados e outros 170 interessados. Três veículos publicaram matérias na véspera:

  • Acontecendo Aqui, principal portal de marketing e publicidade do estado
  • Diário Catarinense, com matéria completa na edição online e nota na edição impressa
  • Notícias do Dia, com matérias no impresso e online

Apesar de todo essa agitação, calculava que apareceriam entre 20 a 30 pessoas, um número muito bom para Florianópolis. Afinal, não deve ter tanta gente que trabalha com letras aqui.

Felizmente, me enganei.

Exercitando o traçoPessoas com os mesmos interesses acabavam sentando próximos. Na foto, pessoal pratica caligrafia em uma das mesas

Graças aos crachás, em que os participantes escreviam seu nome, interesses e ocupação, deu para ter uma ideia do público. Nos quase 50 crachás usados, era possível identificar:

  • Calígrafos
  • Pessoal de lettering
  • Type designers
  • Tatuadores
  • Grafiteiros
  • Designers gráficos
  • Professores e pesquisadores
  • Estudantes
  • Curiosos
  • Baristas (afinal, é preciso justificar o nome do encontro)

Conseguimos até fazer o pessoal sair do ambiente aquecido do café e ir ao deck assistir à demonstração do pincel com madeira balsa do Lese Pierre e a minha, de tinta de extrato de nogueira. Dentro da proposta inicial, de deixar o evento aberto, houve duas surpresas: o pessoal da Pintassilgo Prints doou um catálogo de fontes para o sorteio e Jefferson Cortinove distribuiu edições da revista Café Espacial.

DemonstraçãoLese Pierre demonstra o uso de pena feita com madeira balsa

A ideia agora é fazer o próximo daqui a dois meses, em um sábado à tarde, para dar oportunidade a quem não pode ir durante a semana. Se der certo, vamos manter a periodicidade bimestral e intercalaremos entre as noites dos dias de semana e as tardes de sábado. Para ser avisado das próximas edições, cadastre-se para receber nossos emailsentre no grupo no Facebook. Sugestões são bem vindas.

Finalmente, os agradecimentos: o Café com Serifa ganhou a ajuda de várias pessoas:

As fotos que acompanham este artigo e várias outras estão neste álbum do Flickr

Pintores têm galerias, vernissages e happenings. Escritores contam com tardes de leituras e noites de autógrafos. Jornalistas, nem se fala. Já calígrafos e tipógrafos raramente têm eventos para fazer uma social.

Para mostrar que a classe não é formada por bichos-do-mato, estou organizando um encontro chamado Café com Serifa aqui em Florianópolis (SC).

A ideia é juntar:

  • Calígrafos
  • Type designers e tipógrafos
  • Letristas
  • Designers
  • Qualquer um que se interesse por letras

Trata-se de um evento informal, aberto e gratuito. Teremos uma programação básica para dar o primeiro empurrão:

  • O artista visual Lese Pierre, que também está por trás do Café com Serifa, vai ensinar a fazer um pincel com madeira balsa e mostrar como usou essa ferramenta em seu último projeto.
  • Eu vou passar a receita da tinta de extrato de nogueira, mostrar o efeito que ela dá e sortear um vidrinho.

Quando comecei a praticar caligrafia com mais frequência, não sabia de nenhum outro praticante na cidade. Só depois que botei meu trabalho na rua é que fui conhecer outros designers e artistas que desenvolvem um trabalho ligado às letras.

Colegas com quem eu comentei sobre o plano de fazer um encontro reagiram com entusiasmo. A maior inspiração é o Bistecão Ilustrado, encontro de ilustradores que começou em São Paulo e se espalhou por outras cidades. Aqui tivemos uma versão local, o Berbigão Ilustrado, em 2007. Também tomei emprestado do pessoal de programação o conceito de desconferência, tipo de evento colaborativo que deixa as coisas livres para acontecerem. 

Outra peça importante é o Coffee & Shop 18, que sempre apoia iniciativas culturais. É o local onde fiz duas exposições de caligrafia e, não por coincidência, um dos donos é designer e aficionado por tipografia. 

Agora que tudo está acertado, basta chamar quem poderia se interessar e isso inclui você. Topas? 

Serviço

Café com Serifa · Encontro de calígrafos, tipógrafos, letristas e afins.
9 de junho de 2016, quinta, a partir das 19h.
Entrada gratuita.
Onde: 
Coffee & Shop 18.
Rua Professor Ayrton Roberto de Oliveira, 64 - Itacorubi, Florianópolis - SC.
Veja o evento do Café com Serifa no Facebook.

Visitantes e expositoresExpositores no segundo dia do Parque Gráfico no Museu da Escola Catarinense

Analisando o Parque Gráfico depois de toda a correria, não dá para negar que foi um sucesso. O Museu da Escola Catarinense, em Florianópolis, ficou cheio nos três dias e a organização caprichou na seleção dos expositores. Definitivamente, existe público para arte impressa e publicações independentes de todo o tipo, incluindo aí meus trabalhos de caligrafia.

Na sexta, vieram visitantes que já estavam pelo Centro ou tinham acabado de sair do trabalho. Sábado foi o dia com mais movimento, como era esperado. No domingo, ainda muita gente – ganhamos do tempo chuvoso e da macarronada com a família.

A feira também teve boa cobertura na imprensa local. Saíram matérias no Notícias do Dia e no Diário Catarinense (neste até recebi destaque na versão online).

Ao trabalho!Minha mesa já montada com os trabalhos de caligrafia no primeiro dia do Parque Gráfico

Foi a melhor feira de que participei até agora. Não fiquei sentado mais de 15 minutos seguidos. Estava sempre conversando com alguém e quase perdi a voz. Porém, foi preciso se preparar. No meu caso, fiz séries novas especialmente para o Parque Gráfico e selecionei obras do meu arquivo que mostravam bem os vários estilos que faço. Quando se é convidado a participar de um evento, é bom investir energia nisso.

Conversar com os visitantes e observar o que teve mais saída impõe uma reflexão sobre seu próprio trabalho. Descobri que as frases que escolho para fazer as obras de caligrafia encontram eco nas pessoas. Sinal de que posso manter essa abordagem meio sarcástica e continuar usando referências menos comuns.